Rússia ameaça atacar fábricas britânicas de drones para a Ucrânia
Ajuda militar do Reino Unido à Ucrânia aumenta tensão na Europa
A Rússia ameaçou atacar fábricas britânicas de drones para a Ucrânia e ampliou a tensão com Londres ao classificar instalações ligadas ao fornecimento de armamentos a Kiev como possíveis alvos militares. A advertência ocorre em meio à expansão da indústria de veículos aéreos não tripulados no Reino Unido e à intensificação dos ataques ucranianos contra refinarias, depósitos logísticos e instalações militares em território russo.Play Video
De acordo com informações publicadas pela Reuters e repercutidas pela imprensa britânica, Moscou acusa o Reino Unido de aprofundar sua participação na guerra. A nova escalada retórica se soma a uma declaração da Embaixada da Rússia em Londres, segundo a qual o apoio britânico a Kiev provocará “consequências” e elevará o “preço” a ser pago pelo país europeu.
A ameaça mais direta foi divulgada anteriormente pelo jornal britânico The Times. Segundo a publicação, o Ministério da Defesa russo relacionou 23 empresas e instalações no Reino Unido e em outros países europeus envolvidas na fabricação de drones ou no fornecimento de componentes para equipamentos utilizados pelas Forças Armadas da Ucrânia.
Entre os locais mencionados estão unidades industriais próximas à base aérea de Mildenhall, no condado inglês de Suffolk, além de empresas situadas nas regiões de Londres e Leicester. O ex-presidente russo Dmitry Medvedev, atual vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, afirmou que essas instalações poderiam ser tratadas como alvos, a depender do desenvolvimento do conflito.
Apesar da gravidade da advertência, Moscou não apresentou evidências de preparativos operacionais para atacar o território britânico nem anunciou uma decisão formal nesse sentido. Um eventual bombardeio contra o Reino Unido, integrante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), representaria uma expansão sem precedentes da guerra e poderia acionar mecanismos de defesa coletiva da aliança.
Produção de drones cresce no Reino Unido
O governo britânico vem ampliando a produção doméstica de aeronaves não tripuladas destinadas à Ucrânia. Em fevereiro, uma nova unidade da fabricante ucraniana Ukrspecsystems foi inaugurada em Suffolk, com instalações em Mildenhall e Elmsett.
O projeto prevê investimento de £ 200 milhões e a criação de até 500 empregos. A empresa fabrica equipamentos como os drones de reconhecimento PD-2, SHARK e Mini-SHARK, empregados na localização e no acompanhamento de alvos, segundo o Ministério da Defesa britânico
O Reino Unido também iniciou a fabricação do drone interceptor Octopus, desenvolvido para destruir aparelhos russos do tipo Shahed a um custo inferior ao dos sistemas convencionais de defesa aérea. A meta britânica é elevar a capacidade produtiva a milhares de unidades por mês.
Além dessas iniciativas, empresas britânicas produzem drones de ataque de longo alcance utilizados pelas tropas ucranianas. Um dos modelos identificados pela imprensa é o Nyran, desenvolvido pela Callen-Lenz, subsidiária da BAE Systems. Fabricado em Wiltshire, o aparelho teria sido empregado contra alvos na região russa de Belgorod e possui alcance superior a 240 quilômetros.
Outra aeronave, fabricada por uma empresa cuja identidade não foi divulgada por razões de segurança, seria capaz de percorrer mais de 960 quilômetros. O equipamento é lançado por catapulta e amplia significativamente a capacidade ucraniana de atingir alvos distantes da linha de frente.
Londres promete manter apoio a Kiev
A mais recente advertência russa foi emitida após relatos de que drones fabricados no Reino Unido participaram, pela primeira vez, de ataques de longo alcance dentro da Rússia. A Embaixada russa afirmou que “as ações de Londres inevitavelmente terão consequências pelas quais terá de responder”.
“Quanto mais profundo for seu envolvimento no conflito e maior seu apoio à máquina terrorista de Kiev, maior será o preço que terá de pagar”, declarou a representação diplomática russa.
O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, respondeu que o país continuará apoiando integralmente a Ucrânia. “Não somos amigos apenas nos bons momentos. Estaremos ao lado da Ucrânia em sua hora de necessidade, e isso não vai mudar”, afirmou, segundo a Reuters.
O Ministério da Defesa britânico não confirmou quais modelos produzidos no país foram utilizados nos ataques em território russo. Um porta-voz da pasta, no entanto, declarou que Londres está comprometida em fornecer os equipamentos necessários para que a Ucrânia se defenda da ofensiva conduzida pelo governo de Vladimir Putin.
O governo britânico anunciou um pacote de £ 752 milhões para o fornecimento de 150 mil drones à Ucrânia até o fim de 2026. O programa engloba aeronaves de ataque, reconhecimento e inteligência, equipamentos logísticos e sistemas marítimos não tripulados.
Guerra aérea ganha alcance
A troca de ameaças ocorre enquanto Rússia e Ucrânia intensificam o emprego de drones e mísseis contra alvos situados longe da linha de frente. Kiev tem concentrado seus ataques em refinarias, terminais petrolíferos, centros logísticos e instalações militares russas, numa tentativa de reduzir a capacidade de financiamento e abastecimento das tropas de Moscou.
A Rússia, por sua vez, mantém ataques em larga escala contra cidades e estruturas estratégicas ucranianas. Em uma das ofensivas recentes contra Kiev e seus arredores, ao menos 16 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. Prédios residenciais, uma escola, um hospital infantil e uma creche foram atingidos, segundo autoridades locais ouvidas pela Associated Press. Associated Press
Moscou sustenta que o fornecimento de armamentos de longo alcance transforma os países ocidentais em participantes diretos da guerra. Os governos europeus rejeitam essa interpretação e afirmam que a assistência militar tem como objetivo permitir que a Ucrânia exerça seu direito de defesa diante da invasão iniciada pela Rússia em fevereiro de 2022.
A inclusão de fábricas britânicas entre possíveis alvos aprofunda a deterioração das relações entre Moscou e Londres. A Rússia retirou recentemente seu embaixador do Reino Unido e declarou que os vínculos bilaterais chegaram a um nível “sem precedentes” de desgaste, enquanto o governo britânico reafirmou que manterá sua representação diplomática em Moscou.