Irã acusa EUA de recorrer à guerra econômica após fracasso militar
Teerã promete retaliar sanções ampliadas por Washington; campanha dos EUA mira bancos, empresas, navios e intermediários ligados à economia iraniana
O governo iraniano reagiu à ampliação das sanções econômicas anunciadas pelos Estados Unidos e afirmou que está preparado para responder à nova ofensiva de Washington. Segundo informações publicadas pela Al Jazeera nesta terça-feira (25), autoridades e representantes iranianos classificaram a medida como uma tentativa de sufocar a economia do país depois de Washington não conseguir impor seus objetivos pela via militar.
O porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica, Sardar Mohebi, disse, de acordo com a mídia estatal iraniana citada pela Al Jazeera, que a decisão dos EUA de intensificar a pressão econômica equivale a uma “admissão tácita” de derrota no campo militar. “Se vocês tivessem vencido na arena militar, não precisariam iniciar uma guerra econômica”, afirmou.
A nova frente de pressão foi apresentada pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, como “Operação Pária Econômico”. A estratégia busca bloquear fluxos financeiros para o Irã por meio de bancos estrangeiros, empresas e intermediários. O Tesouro norte-americano sancionou quase 60 entidades, incluindo companhias e embarcações, e ampliou a ameaça de sanções secundárias para setores como transporte marítimo, aviação, ouro, tecnologia e ativos digitais.
A mensagem de Washington aos parceiros comerciais de Teerã é direta: continuar ajudando o Irã pode significar perda de acesso ao sistema financeiro dos Estados Unidos. Ainda segundo a Al Jazeera, as penalidades não estão sendo aplicadas de forma generalizada de imediato, e Bessent afirmou que países e empresas terão oportunidade de “mudar de rumo”.
O ministro da Economia do Irã, Ali Madani Zadeh, também reagiu à ofensiva e afirmou que o país está “totalmente preparado para as sanções americanas”. Segundo ele, “os inimigos querem lançar um ataque terrorista econômico contra nós, mas também temos nossos próprios meios e sabemos como jogar este jogo”.
A avaliação em Teerã é que a pressão econômica confirma uma mudança de estratégia por parte dos EUA. Para autoridades iranianas, Washington passou a atacar a economia do país porque não conseguiu alcançar seus objetivos na esfera militar. O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Irã-China, Majidreza Hariri, afirmou em publicação na rede X que os Estados Unidos entraram em uma nova etapa de confronto.
“O que Trump disse deixa claro que ele entrou em uma guerra econômica contra nós e a considera uma nova fase das guerras militares e de segurança”, escreveu Hariri. “Com esse mesmo raciocínio, todos os alvos econômicos dos Estados Unidos e de seus parceiros ao redor do mundo, especialmente na região, são considerados alvos militares do inimigo e podem ser atingidos”, acrescentou.
A pressão também ocorre em meio a sinais de tensão no Estreito de Hormuz, uma das rotas mais sensíveis para o comércio global de energia. Dados de navegação citados pela Al Jazeera mostram que apenas dois petroleiros cruzaram o estreito na segunda-feira, o menor volume diário de embarcações de commodities desde o início de maio. O número ficou bem abaixo da média de dez dias, que era de 14 embarcações.
Dados provisórios da plataforma Vortexa indicaram que o trânsito de petróleo pelo Hormuz chegou a 5 milhões de barris por dia na segunda-feira. Pela média móvel de sete dias, os fluxos pelo estreito estavam entre 6 milhões e 7 milhões de barris por dia até 23 de agosto.
Analistas ouvidos pela Al Jazeera avaliam, no entanto, que o Irã acumulou experiência suficiente para lidar com sanções. Ali Akbar Dareini, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos em Teerã, afirmou que o país está acostumado a contornar restrições impostas pelo Ocidente.
“[O Irã] tem doutorado em contornar sanções, então o Irã tem certeza absoluta de que sairá vitorioso, e os EUA mais uma vez fracassarão em seus esforços para sufocar o Irã”, disse Dareini à Al Jazeera.
Segundo ele, o objetivo das sanções é provocar colapso econômico e instabilidade interna, mas essa aposta repetiria erros de cálculo anteriores dos EUA. “O objetivo das sanções é causar um colapso econômico e provocar tumultos no Irã, mas isso se baseia em um grande, enorme erro de cálculo, como a guerra militar de agressão dos Estados Unidos contra o Irã em 28 de fevereiro, que fracassou”, afirmou.
Dareini também disse que seria “quase impossível” bloquear totalmente o acesso do Irã ao mundo exterior. Para o analista, Teerã mantém instrumentos de pressão na região e poderia retaliar caso seja impedido de importar insumos ou exportar petróleo.
No campo diplomático, o ministro do Interior do Paquistão afirmou que houve progresso significativo nas conversas com o presidente iraniano para restaurar um memorando de entendimento anterior entre Washington e Teerã. A informação foi registrada pela Al Jazeera em meio à escalada das pressões econômicas contra o Irã.
A China, por sua vez, reagiu às novas sanções dos EUA afirmando que sua cooperação com Teerã sempre respeitou o direito internacional. Já o Departamento de Estado norte-americano renovou o pedido de informações sobre cinco figuras importantes da Guarda Revolucionária Islâmica, oferecendo recompensas de até US$ 10 milhões.