Setor de etanol rebate Flávio Bolsonaro e acusa senador de desinformação
Entidades afirmam que mistura do biocombustível à gasolina é política de Estado baseada em critérios técnicos e lembram que senador apoiou a Lei do Combustível do Futuro
Entidades representativas da agroindústria e do setor de etanol reagiram às declarações do senador Flávio Bolsonaro, que comparou a mistura obrigatória de etanol à gasolina ao fenômeno conhecido como “reduflação” — prática em que fabricantes diminuem a quantidade de um produto vendido sem promover redução proporcional de seu preço.Play Video
Representantes do setor classificaram a comparação como desinformativa e afirmaram que ela ignora uma política energética desenvolvida pelo Brasil ao longo de aproximadamente cinco décadas, desde a criação do Proálcool até iniciativas mais recentes, como o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro.
Segundo as entidades, a presença do etanol na gasolina não representa redução da qualidade do combustível, mas uma escolha estratégica que aumenta a octanagem, melhora a eficiência dos motores, reduz a dependência de petróleo e derivados importados e fortalece uma cadeia produtiva responsável por empregos em diversas regiões do país.
Setor lembra que Flávio apoiou legislação
As entidades também destacaram que a própria Lei do Combustível do Futuro, que ampliou e consolidou instrumentos para a utilização de biocombustíveis no Brasil, contou com apoio durante sua tramitação no Congresso Nacional, inclusive do próprio Flávio Bolsonaro.
Para o setor, existe uma contradição entre a participação do senador na aprovação da legislação e as críticas feitas posteriormente à política de mistura do etanol.
A legislação é parte de uma estratégia brasileira para ampliar a utilização de combustíveis renováveis, reduzir emissões e diminuir a exposição do país às oscilações internacionais do mercado de petróleo.
Mistura é definida por critérios técnicos
O setor também ressaltou que a porcentagem de etanol misturada à gasolina não é determinada arbitrariamente.
As decisões passam por avaliações do governo federal e de órgãos reguladores e são acompanhadas por fabricantes de veículos, importadores e instituições técnicas.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) participa desse processo regulatório, que envolve avaliações sobre qualidade, eficiência, segurança e compatibilidade dos combustíveis utilizados pela frota brasileira.
As entidades sustentam que qualquer alteração na composição da gasolina comercializada no país é precedida por estudos e testes técnicos.
Testes foram realizados com carros e motocicletas
Segundo o setor, ensaios laboratoriais e testes realizados em pista avaliaram o funcionamento de diferentes concentrações de etanol na gasolina em veículos de diversas gerações.
Foram analisados 16 modelos de automóveis e 13 modelos de motocicletas fabricados entre 1994 e 2024.
Os resultados, de acordo com as entidades, demonstraram que misturas com até 32% de etanol não provocaram prejuízos ao desempenho dos motores avaliados.
Os testes são apresentados como evidência de que a política de aumento gradual da participação do biocombustível está amparada por avaliações técnicas, e não apenas por decisões políticas.
Etanol aumenta octanagem da gasolina
Outro argumento levantado pelo setor é que a adição de etanol melhora características importantes da gasolina.
O biocombustível possui elevada octanagem, propriedade que aumenta a resistência do combustível à detonação dentro do motor e pode contribuir para maior eficiência dos veículos.
Por isso, países que não possuem uma indústria de etanol comparável à brasileira precisam recorrer a outros componentes para alcançar determinadas especificações de qualidade da gasolina.
O Brasil, por sua vez, desenvolveu ao longo de décadas uma cadeia integrada entre agricultura, indústria automotiva, produção de biocombustíveis e distribuição de combustíveis.
Brasil alcançou autonomia no ciclo Otto
As entidades ressaltam ainda que o desenvolvimento do etanol contribuiu para que o Brasil alcançasse elevado grau de autonomia energética no chamado ciclo Otto, que engloba principalmente veículos leves movidos a gasolina, etanol ou uma combinação dos dois combustíveis.
Essa estrutura reduz a necessidade de importação de derivados de petróleo e protege parcialmente o consumidor brasileiro das oscilações do mercado internacional.
A produção nacional de biocombustíveis também representa economia de divisas e contribui para a balança comercial brasileira.
Com a expansão dos veículos flex, o consumidor passou ainda a poder escolher entre gasolina e etanol hidratado de acordo com preço, disponibilidade e conveniência.
Produção está presente em mais de mil municípios
O setor ressalta também o impacto econômico da cadeia produtiva.
A produção de etanol está distribuída por mais de mil municípios brasileiros e movimenta atividades agrícolas, industriais, logísticas e comerciais.
Além dos empregos diretamente relacionados às usinas e à produção agrícola, a cadeia envolve fornecedores de máquinas, equipamentos, tecnologia, transporte e serviços.
Para as entidades, enfraquecer essa política significaria atingir uma indústria que combina segurança energética, desenvolvimento regional e produção de energia renovável.
Uma política construída ao longo de cinco décadas
A utilização do etanol em larga escala começou a ganhar força no Brasil durante a década de 1970, quando o país buscava alternativas à forte dependência do petróleo importado.
O Proálcool tornou-se uma das mais importantes políticas de substituição de combustíveis fósseis desenvolvidas no mundo.
Décadas depois, a introdução dos automóveis flex ampliou ainda mais a utilização do biocombustível, enquanto novas políticas públicas passaram a incorporar também a dimensão ambiental da produção energética.
O RenovaBio e, mais recentemente, o programa Combustível do Futuro representam etapas dessa evolução.
Para o setor, portanto, comparar a mistura de etanol à gasolina com uma redução artificial da quantidade de um produto ignora tanto a história dessa política quanto seus fundamentos tecnológicos.
As entidades afirmam que continuarão defendendo o modelo brasileiro com base em estudos técnicos, evidências científicas e resultados econômicos.
Na avaliação do setor, o etanol não reduz o combustível entregue ao consumidor. Ao contrário: representa uma tecnologia desenvolvida pelo Brasil que contribui para aumentar o desempenho dos combustíveis, gerar empregos, reduzir importações e fortalecer a soberania energética nacional.