Brasil atinge menor taxa de assassinatos em 14 anos em 2025
Anuário aponta queda de 31% nos homicídios desde 2012, mas revela alta na letalidade policial e forte disparidade racial
O Brasil atingiu em 2025 o menor patamar de assassinatos da última década e meia, registrando 40.775 vítimas de mortes violentas em todo o território nacional. Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23), e revelam que a taxa de assassinatos no país recuou para o menor nível desde 2012. Apesar da retração geral nos números, o levantamento expõe a persistência de uma profunda desigualdade racial nas estatísticas de violência, além do aumento da letalidade em intervenções policiais, segundo reportagem do jornal O Globo que analisa os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).Play Video
Em 2025, a taxa nacional ficou em 19,1 registros para cada grupo de 100 mil habitantes. O resultado representa uma diminuição de 8% na comparação direta com o ano de 2024 e uma queda expressiva de 31% frente a 2012, ano que marca o início da série histórica do levantamento. A métrica de Mortes Violentas Intencionais (MVI) desenvolvida pelo FBSP engloba o somatório das ocorrências de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes provocadas por intervenções policiais, quer o agente esteja em serviço ou fora dele.
No recorte focado especificamente nos homicídios dolosos — nos quais há intenção explícita de matar —, a queda observada foi de 10%, resultando em uma taxa de 15,4 casos por 100 mil habitantes. O indicador marca o cumprimento antecipado das diretrizes nacionais de segurança: em 2021, com a revisão das normas do Sistema Único de Segurança Pública pelo Governo Federal, estabeleceu-se o compromisso de atingir a marca de 16 homicídios por 100 mil habitantes até o ano de 2027. O patamar estipulado acabou sendo alcançado com dois anos de antecedência.
Alerta sobre o papel do Estado na violência
Apesar do alcance antecipado da meta, especialistas apontam a necessidade de ponderação diante do quadro geral da segurança pública. A doutora em Ciências Sociais e pesquisadora do FBSP, Raquel Souza, avalia que o resultado positivo precisa ser analisado sob o prisma do comportamento das forças de segurança do próprio país.
“A boa notícia sobre a antecipação da meta de redução de homicídios no Brasil precisa ser, infelizmente, relativizada. O país precisa encontrar mecanismos de controle do uso da força mais efetivos, já que tais dados mostram que o Estado, em suas múltiplas esferas e poderes, tem sido parte do problema e não apenas das soluções para a segurança pública brasileira”, avalia a pesquisadora.
A ressalva ganha sustentação nos números de ações letais envolvendo forças policiais. Na contramão da tendência de queda dos indicadores gerais de MVI, o ano de 2025 registrou uma alta de 5,4% nas mortes decorrentes de intervenção policial. Foram contabilizados 6.602 casos ao longo do ano passado, o que significa que as ações do Estado responderam por 1 em cada 6 mortes violentas intencionais ocorridas no Brasil.
Desigualdade racial e recortes regionais
A violência no país continua sendo marcada por uma forte assimetria racial. Conforme os dados apresentados no anuário, a população negra é desproporcionalmente atingida, representando 79,7% das vítimas do total de mortes violentas intencionais. De acordo com o estudo, a probabilidade de um cidadão negro ser assassinado no Brasil é 3,5 vezes superior à de uma pessoa branca.
O recorte racial se torna ainda mais acentuado quando observadas exclusivamente as mortes resultantes de intervenções policiais: nesse indicador, os negros correspondem a 82% das vítimas fatais, enquanto os brancos somam cerca de 18%.
Regionalmente, os números também expõem diferenças marcantes. Enquanto a média nacional encerrou o período em 19,1 vítimas por 100 mil habitantes, a região Nordeste apresentou o indicador mais elevado do país, com 31,6 MVI por 100 mil habitantes, seguida pela região Norte, com taxa de 25,3. Apesar de figurarem no topo do ranking de letalidade, ambas as regiões registraram recuo em relação aos índices apurados em 2024.
O avanço da violência nessas localidades está diretamente atrelado à dinâmica de atuação do crime organizado na tomada de territórios e recursos locais, segundo analisa Raquel Souza.
“Essa concentração de Mortes Violentas Intencionais nas regiões Norte e Nordeste do país está muito associada, mesmo que não de forma exclusiva, à capacidade de organizações criminosas ampliarem suas forças a partir da captura de territórios, economias e modos de vida. O controle de infraestruturas críticas da economia dessas regiões passa a ser disputado e, com isso, há um aumento da violência letal”, complementa a especialista do FBSP.
Na outra ponta da estatística, os índices mais baixos de mortes violentas intencionais foram registrados no Sul e no Sudeste, que fecharam o levantamento com taxas de 11,9 e 12,6 por 100 mil habitantes, respectivamente.