O País da Memória Curta

Ricardo Bernardes*

O Brasil não esquece necessariamente porque se importa pouco. Talvez esteja começando a esquecer porque o presente chega depressa demais para conseguir transformar-se em memória.

George Orwell imaginou um Estado que precisava trabalhar diariamente para apagar o passado. Talvez tenha subestimado o futuro. Descobrimos outra maneira de produzir esquecimento: não é necessário destruir acontecimento algum. Basta produzir tantos acontecimentos que nenhum deles permaneça tempo suficiente diante de nós.

Em 1984, Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade. Sua função é alterar documentos, corrigir jornais antigos, modificar registros e fazer desaparecer fatos que já não interessam ao poder. O passado precisa concordar permanentemente com o presente. Aquilo que contradiz a narrativa oficial é lançado no chamado “buraco da memória”. O nosso tempo inventou um mecanismo diferente. Não precisamos necessariamente apagar o passado. Podemos simplesmente soterrá-lo.

Em abril de 2025, o Brasil descobriu um gigantesco esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. A revelação produziu operações policiais, afastamentos, investigações, audiências, indignação política e enorme repercussão nacional. Os números ajudam a recuperar a dimensão do que aconteceu. Milhões de pedidos de ressarcimento foram apresentados. Bilhões de reais começaram a ser devolvidos.

O episódio provocou mudanças administrativas e chegou à legislação: em janeiro deste ano, entrou em vigor uma lei proibindo descontos de mensalidades associativas nos benefícios administrados pelo INSS e estabelecendo mecanismos de proteção e ressarcimento. A história, portanto, continuou. Mas a atenção pública já estava em outro lugar. Vieram novas operações. Outros escândalos e novas crises. Outras guerras políticas e novos vídeos. Mais personagens e novas indignações.

O escândalo contemporâneo raramente termina. Ele é substituído. Talvez seja essa uma das características mais perturbadoras da sociedade informacional: nunca tivemos tanto acesso ao passado e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos encontrado tanta dificuldade para permanecer diante dele.

Está tudo armazenado. As notícias continuam nos sites. Os vídeos permanecem nas plataformas. Os documentos podem ser pesquisados. Os processos deixam rastros digitais. A informação aparentemente nunca desaparece. Mas memória não é armazenamento. Memória é permanência. É a capacidade de uma sociedade continuar perguntando o que aconteceu depois que as câmeras foram embora. Quem foi responsabilizado? Quem foi absolvido? Quanto dinheiro foi recuperado? Que falha institucional permitiu aquilo? O que mudou? A promessa anunciada durante a crise foi cumprida? A lei funcionou? As vítimas foram reparadas? Essas perguntas exigem uma coisa que o nosso tempo parece distribuir cada vez menos: duração.

George Orwell escreveu sobre o controle político da memória. O século XXI acrescentou a esse problema o controle econômico da atenção. Nossa atenção tornou-se um recurso disputado por jornais, redes sociais, plataformas, políticos, empresas, influenciadores, anunciantes e milhões de produtores de conteúdo. Todos precisam de alguns segundos de nós. E, para consegui-los, precisam oferecer alguma coisa nova.

A novidade torna-se então uma espécie de combustível do presente. Aquilo que aconteceu ontem pode continuar importante. Mas deixou de ser novo. E aquilo que deixou de ser novo começa a desaparecer do campo de visão coletivo. É assim que uma sociedade pode estar extraordinariamente informada e, ao mesmo tempo, tornar-se historicamente desatenta.

Sabemos de tudo. Por pouco tempo. Esse talvez seja o verdadeiro significado contemporâneo da memória curta. Não é necessariamente ignorância. É saturação.

O cidadão acorda e recebe uma sucessão de acontecimentos que, em outras épocas, talvez ocupassem semanas de discussão pública. Uma denúncia aparece pela manhã. À tarde, surge uma

decisão judicial. À noite, um vídeo viral reorganiza o debate. No dia seguinte, uma crise internacional empurra tudo para baixo na tela.

Não existe silêncio suficiente entre um acontecimento e outro para que a sociedade consiga transformá-los em experiência. O presente tornou-se excessivo. E democracias precisam de memória. Precisam dela não para cultivar ressentimentos eternos, mas para produzir responsabilidade.

Uma sociedade democrática precisa lembrar quem prometeu. Quem cumpriu. Ou quem acusou., ou quem provou. Quem foi investigado e quem foi condenado. E, tão importante quanto tudo isso, quem foi inocentado. Porque memória democrática não significa conservar acusações. Significa conservar o percurso completo dos fatos. Esquecer uma absolvição pode ser tão injusto quanto esquecer um crime. Esquecer uma reparação pode ser tão enganoso quanto esquecer o dano que a tornou necessária.

A memória pública não pode funcionar como arquivo seletivo das nossas conveniências políticas. Nesse ponto, Orwell volta a ser perturbadoramente atual. Em 1984, o passado era reescrito para servir ao poder. Hoje existe o risco de fazermos algo semelhante de maneira descentralizada. Grupos políticos conservam aquilo que confirma suas narrativas e abandonam aquilo que as contradiz. Trechos antigos reaparecem sem contexto. Declarações são recuperadas seletivamente. Erros do adversário tornam-se eternos; erros dos aliados desaparecem rapidamente. Cada grupo começa a construir seu próprio arquivo moral. O resultado não é memória. É munição.

E uma democracia não consegue construir realidade compartilhada quando o passado se transforma apenas num depósito de fragmentos utilizados para vencer discussões no presente. Existe ainda um conflito de velocidades que talvez seja mais grave. Investigações levam meses. Processos judiciais levam anos. Políticas públicas precisam de tempo para produzir resultados. Reparações históricas podem atravessar governos.

A atenção pública, entretanto, passou a funcionar em horas. As instituições vivem no tempo longo. A indignação vive no tempo instantâneo. Entre esses dois relógios abre-se um espaço perigoso. É ali que acontecimentos desaparecem antes de serem compreendidos. É ali que promessas deixam de ser cobradas. É ali que investigações continuam sem testemunhas públicas. É ali que personagens condenados previamente pela opinião pública podem ser absolvidos quando ninguém mais está olhando. E é ali também que responsáveis podem apostar numa velha esperança política: o tempo passa.

O público esquece. Outro assunto chega. Talvez o problema brasileiro não seja simplesmente possuir memória curta. Talvez seja viver num presente permanente. Um presente tão carregado de acontecimentos que mal consegue reconhecer aquilo que aconteceu na semana anterior. Um país que começa todos os dias como se estivesse abrindo uma página nova corre o risco de nunca terminar a leitura da página anterior. E isso possui consequências políticas profundas. Porque aquilo que não permanece na memória dificilmente permanece como cobrança. Sem memória, não existe comparação. Sem comparação, promessas podem ser repetidas. Fracassos podem retornar com nomes diferentes. Erros institucionais podem reaparecer. Velhas soluções podem ser apresentadas como novidades. E antigos mecanismos de exploração podem simplesmente trocar de roupa.

Winston Smith trabalhava todos os dias modificando o passado para impedir que alguém confrontasse o poder com aquilo que havia acontecido ontem. Nossa sociedade não possui um Ministério da Verdade encarregado de lançar jornais antigos num buraco da memória. Talvez nem precise. Construímos algo muito mais veloz: um presente tão barulhento que o passado pode desaparecer sem precisar ser destruído.

A informação continua disponível. O documento continua armazenado. A notícia continua publicada. Mas ninguém está mais olhando. Esse talvez seja um dos grandes paradoxos do nosso tempo: construímos a maior capacidade de armazenamento da história e, simultaneamente, uma cultura que parece ter cada vez menos tempo para lembrar.

Orwell temia uma sociedade em que o poder pudesse controlar o passado. Talvez devamos temer também uma sociedade em que ninguém precise controlá-lo porque simplesmente não conseguimos permanecer diante dele. Uma democracia começa a correr perigo quando seus cidadãos ainda conseguem indignar-se com tudo — mas já não conseguem lembrar por tempo suficiente daquilo que os indignou. Porque aquilo que uma sociedade esquece depressa demais corre o risco de precisar viver novamente.

Este artigo integra a série A República das Aparências, um conjunto de ensaios que utiliza literatura, filosofia e história para interpretar os desafios do Brasil e da sociedade contemporânea.

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Ricardo Bernardes é jornalista, editor, ilustrador e ensaísta. Escreve sobre literatura, política, democracia e cultura, explorando como grandes obras da filosofia e da literatura ajudam a interpretar o Brasil contemporâneo.

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