Presidente da ABDI, em entrevista à TV 247, diz que inovação e rastreabilidade são o passaporte da indústria do Brasil no mercado global.
Em um cenário global marcado pela acirrada disputa tecnológica e pela reconfiguração das cadeias de suprimentos, o Brasil busca consolidar uma estratégia de longo prazo para garantir sua soberania e competitividade produtiva. Em entrevista concedida à TV 247, o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Olavo Noleto, apresentou um panorama detalhado sobre os avanços, os desafios e o impacto das ações da Nova Indústria Brasil (NIB), destacando a transição do país em direção à Indústria 4.0, a inspiração no modelo de desenvolvimento chinês e a criação de mecanismos unificados de fomento e simplificação burocrática.
Nova Indústria Brasil (NIB) e a mobilização de recursos
Em resposta às críticas sobre a efetividade da política industrial brasileira, Olavo Noleto refutou avaliações pessimistas ao apontar a rápida adesão do setor produtivo às diretrizes e financiamentos estabelecidos pelo governo federal.
- Ampliação do plano mais produção: O volume de crédito e investimentos alocados para o setor saltou do patamar inicial de R$ 300 bilhões para mais de R$ 750 bilhões, operados por instituições de fomento como BNDES, FINEP e Embrapii.
- Estrutura por missões: A NIB opera sob seis missões estratégicas que definem prioridades de investimento público-privado para mitigar gargalos históricos e estimular cadeias de alto valor agregado.
- Reversão da desindustrialização: O plano visa contrarrestar décadas de retração industrial no PIB nacional, aliando competitividade externa, transição ecológica e geração de postos de trabalho qualificados.
“Eu não consigo entender quem diz que ela foi um fracasso se você pensar que você não tinha uma política industrial […] O Brasil criou, negociando e discutindo com a indústria, prioridades do governo brasileiro numa política industrial.” — Olavo Noleto
“A indústria comprou a tese, acreditou na proposta, foi lá buscar o dinheiro, buscar empréstimos para investir […] Não tem indicador melhor para dizer que o Nova Indústria Brasil é um grande sucesso.” — Olavo Noleto
“Você vai construir resultados a médio e longo prazo. Isso é o Nova Indústria Brasil e por isso eu me atrevo a dizer que o Nova Indústria Brasil é um sucesso sim, sucesso total.” — Olavo Noleto
Inovação, agregação de valor e rastreabilidade externa
O presidente da ABDI destacou que a consolidação em mercados globais — inclusive sob marcos como a implementação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia — exige a superação de gargalos de conformidade e o avanço no conceito de Indústria 4.0.
- Sistemas de rastreabilidade: Setores consolidados, como a pecuária de exportação, enfrentam novas exigências europeias quanto à origem do produto, sustentabilidade ambiental e controle de insumos.
- Competitividade da liderança nacional: Casos de sucesso como o da Embraer na aviação comercial e regional, a Vale na mineração de escala e empresas de tecnologia e produção de software demonstram a resiliência do parque produtivo brasileiro.
- Automação e qualidade: O avanço em automação industrial e P&D visa baratear custos de produção mantendo altos padrões de diferencial tecnológico exigidos pelo mercado final.
“A carne brasileira, para além da tarifa, vai ter um desafio lá na Comunidade Europeia que é a rastreabilidade. Eles vão exigir que a gente comprove cada vez mais da onde vem aquela carne, o que aquele gado consumiu de alimentação, aonde ele tava localizado.” — Olavo Noleto
“Em todas as cadeias produtivas você vai bater na trave da inovação […] O nosso desafio das diversas cadeias produtivas é cada dia mais inovação, porque você ganha competitividade não só por escala e preço, mas também por qualidade.” — Olavo Noleto
“A indústria brasileira é muito forte, muito resiliente […] Não é um jogo de War. São décadas, décadas e décadas de muito trabalho, de máquinas pesadas, de muito estudo, de economia de escala, de inovação.” — Olavo Noleto
O exemplo chinês: compras públicas e estratégia de longo prazo
Ao analisar o avanço industrial da China e suas prioridades recentes — voltadas a setores como inteligência artificial, robótica e medicamentos avançados —, Noleto frisou que o principal aprendizado da experiência asiática reside no planejamento de longo prazo e no uso do poder de compra do Estado como garantia para o investimento privado.
O caso do complexo industrial da saúde
Para mitigar desabastecimentos similares aos enfrentados na pandemia de COVID-19, o governo brasileiro atua via Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) e compras públicas estratégicas:
- Garantia de demanda estatal: O Ministério da Saúde e órgãos governamentais assumem o compromisso de aquisição pública prioritária de insumos, vacinas, fármacos e próteses fabricados localmente.
- Segurança jurídica e investimento: A previsibilidade de compras estatais concede ao setor privado a segurança necessária para absorver prazos extensos de P&D, construção de plantas e certificação regulatória junto à Anvisa.
- Autonomia na base industrial de defesa: Princípio idêntico é aplicado na retomada de empresas estratégicas nacionais, como a Avibras, e no fortalecimento do setor aeroespacial.
“O grande exemplo da China é ter clara uma estratégia e ter seguido essa estratégia […] Estratégia não é uma estratégia de 6 meses. Estratégia é onde nós queremos estar daqui a 20 anos.” — Olavo Noleto
“Esse é o fator número um da China: ela garante pra empresa a compra do produto […] Quando ela compra o produto, o governo chinês compra o produto, já garantiu a escala, já garantiu pra empresa que ela pode investir, que ela pode fazer inovação.” — Olavo Noleto
“Aqui no Brasil a gente iniciou esse processo com as PDPs, a compra pública do Ministério da Saúde […] ‘Agora que você tá pronto, tá certificado, ao invés de comprar lá da China a vacina, eu vou comprar de você e aí compra da indústria brasileira’.” — Olavo Noleto
Governança unificada e o portal “Investe em Indústria”
Para desatar os gargalos regulatórios que travam aportes financeiros e projetos produtivos, a ABDI estruturou uma governança unificada ao lado do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), BNDES, FINEP, Embrapii e MCTI.
Infográfico: Gemini Notebook
A plataforma funciona como um ambiente integrado de recepção de demandas industriais:
- Identificação de entraves: Através do mapeamento direto no portal, investidores indicam paralisações burocráticas ou ambientais junto a órgãos reguladores.
- Atuação institucional célere: O ecossistema governamental atua diretamente junto às agências para assegurar a tramitação técnica célere e viabilizar a implantação dos projetos no país.
- Casos iniciais: O setor de fertilizantes foi o primeiro contemplado pelo ambiente unificado, com expansão programada para os demais eixos prioritários da NIB.
“Nós criamos uma governança unificada que é coordenada pelo Ministério da Indústria […] para que os recursos que esses atores botam na mesa à disposição da indústria brasileira […] estejam todos na mesma mesa articulados.” — Olavo Noleto
“Muitas vezes uma planta industrial, o problema dela não é o recurso disponível no BNDES, o problema dela é que ela precisa da liberação dessa planta lá na Anvisa […] Essa governança unificada vai olhar essa demanda, vai qualificar ela e vai tentar acelerar o processo.” — Olavo Noleto
Considerações finais
A entrevista do presidente da ABDI reflete uma inflexão nas diretrizes estatais do país, propondo uma articulação profunda entre setor público e privado. Com a integração entre crédito desburocratizado, mitigação de gargalos regulatórios e uso do poder de compra governamental, a política de reindustrialização visa consolidar a soberania produtiva do Brasil em um cenário geopolítico cada vez mais disputado.
“Nós somos apaixonados, acreditamos no Brasil e acreditamos que essa síndrome de vira-lata tem que acabar. Nós somos um povo forte, um país forte, uma economia forte que pode disputar lugar no mundo e tem tudo para ganhar novos mercados e gerar empregos de qualidade.” — Olavo Noleto
Por Brasil 247