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A Sociedade do Espelho Partido

Ricardo Bernardes*

Redes sociais transformaram identidade em performance e fizeram da própria imagem uma das mercadorias mais valiosas do nosso tempo.

O mito de Narciso continua assustadoramente moderno. O jovem que se apaixona pela própria imagem refletida na água talvez tenha sido apenas a primeira vítima de uma civilização que, muitos séculos depois, aprenderia a transformar o reflexo em audiência.

Oscar Wilde aprofundaria essa mesma obsessão em O Retrato de Dorian Gray. No romance, aparência, juventude e representação social passam a valer mais do que a integridade do próprio personagem. Dorian permanece belo. Quem envelhece, apodrece e revela sua deterioração é o retrato escondido.

Talvez poucas metáforas expliquem tão bem o mundo digital contemporâneo.

Em março deste ano, entrou em vigor no Brasil o chamado ECA Digital, estabelecendo novas regras de proteção para crianças e adolescentes em redes sociais, jogos e outros ambientes digitais. Nesta semana, nos Estados Unidos, uma corte do Novo México determinou que a Meta, dona do Facebook e do Instagram, destine US$ 567 milhões a um fundo voltado à saúde mental de jovens e adote novas medidas de proteção para usuários adolescentes. A empresa anunciou que recorrerá da decisão.

Os dois acontecimentos pertencem a universos jurídicos diferentes, mas revelam uma inquietação comum.

Depois de duas décadas fascinados pelas possibilidades das redes sociais, começamos a perguntar mais seriamente qual é o preço humano do espelho que construímos.

A discussão já não diz respeito apenas ao conteúdo que aparece nas telas. Avança sobre algo mais profundo: aquilo que acontece com a identidade quando viver e representar a própria vida passam a ocorrer simultaneamente.

Pela primeira vez na história, milhões de pessoas carregam permanentemente consigo uma pequena máquina de produção da própria imagem.

Não se trata apenas de comunicação.

Trata-se de construção contínua de personagem.

Cada fotografia escolhida, cada postagem, cada opinião pública, cada momento selecionado da intimidade participa de uma espécie de curadoria da existência. O indivíduo contemporâneo não vive apenas uma parte de sua vida. Administra também a representação dela diante de uma audiência que pode estar presente a qualquer momento.

As redes sociais transformaram o cotidiano numa combinação extraordinária de praça pública, vitrine, tribunal e palco.

E o aspecto mais inquietante dessa transformação talvez seja justamente seu caráter voluntário.

As antigas sociedades de vigilância imaginavam um poder que observava os indivíduos. A sociedade digital acrescentou uma novidade desconcertante: frequentemente somos nós mesmos que fornecemos as imagens, os gostos, os desejos, os rostos, os lugares, as opiniões e os fragmentos de intimidade a partir dos quais nossa identidade pública passa a ser construída.

O espelho deixou de apenas refletir. Agora ele exige performance.

O problema começa quando a distância entre a pessoa e sua representação se torna difícil de perceber. A vida concreta passa a disputar espaço com versões selecionadas da existência, editadas por enquadramentos, filtros, escolhas e estratégias conscientes ou inconscientes de apresentação pública.

A felicidade precisa parecer felicidade. O sucesso precisa parecer extraordinário. A viagem precisa parecer inesquecível. A indignação precisa parecer absoluta. Até a tristeza pode adquirir enquadramento, iluminação e audiência. A emoção deixa de ser apenas experiência. Torna-se também linguagem pública.

Oscar Wilde provavelmente reconheceria nesse ambiente uma versão tecnológica de seu Dorian Gray. No romance, o personagem preserva para o mundo uma aparência intocável enquanto o retrato escondido carrega aquilo que ninguém pode enxergar.

As redes sociais talvez tenham multiplicado esses retratos. Não porque todos os perfis sejam falsos. Essa seria uma conclusão simplista. Mas porque todo perfil é necessariamente incompleto. Seleciona. Recorta. Ilumina determinadas partes e deixa outras na sombra.

O problema começa quando passamos a comparar nossa existência inteira com fragmentos cuidadosamente selecionados da existência alheia. Aí o espelho se parte. E cada fragmento parece oferecer uma resposta diferente para a mesma pergunta:

Quem sou eu?

A economia digital percebeu rapidamente o valor desse conflito. A vaidade, característica humana muito anterior à internet, encontrou uma infraestrutura econômica extraordinariamente eficiente. Atenção gera circulação. Circulação gera dados. Dados permitem publicidade, influência e valor econômico.

A imagem deixou de ser apenas representação. Tornou-se ativo.

Por isso, a discussão sobre redes sociais não pode permanecer restrita a uma condenação moral da vaidade individual. Existe uma estrutura econômica inteira organizada em torno da necessidade de manter pessoas olhando, reagindo, publicando e retornando às plataformas.

Narciso olhava para a água. Nós carregamos o lago no bolso. E ele nos acompanha durante todo o dia.

Existe, entretanto, uma diferença fundamental. Narciso contemplava apenas a própria imagem. O indivíduo contemporâneo contempla simultaneamente milhões de outras imagens que lhe dizem, silenciosamente, como deveria parecer, viver, envelhecer, viajar, trabalhar, amar, vencer e até sofrer.

O espelho tornou-se coletivo. E, justamente por isso, fragmentado.

A questão deixa então de ser apenas psicológica. Torna-se cultural.

Que espécie de sociedade nasce quando visibilidade começa a ser confundida com importância? Quando aprovação parece medida de valor? Quando aquilo que aparece possui mais força simbólica do que aquilo que simplesmente existe?

O espelho contemporâneo não devolve apenas identidade. Devolve audiência.

Talvez seja isso que transforme o velho mito de Narciso numa das histórias essenciais do século XXI. Seu drama não estava somente em amar a própria imagem. Estava em perder a capacidade de se afastar dela.

É esse o risco que merece ser discutido agora que governos, tribunais, famílias, pesquisadores e as próprias plataformas começam a perguntar até onde deve ir a responsabilidade sobre os ambientes digitais que construímos.

Não se trata de demonizar a tecnologia. Redes sociais aproximam pessoas, criam comunidades, permitem expressão, circulação cultural e formas inéditas de participação pública. O problema seria acreditar que tamanha transformação da experiência humana poderia acontecer sem produzir também conflitos profundos de identidade, pertencimento e reconhecimento.

Wilde escondia o retrato de Dorian Gray num quarto. Nós colocamos nossos retratos na praça pública. E talvez o drama do nosso tempo não seja possuir espelhos demais.

Seja descobrir, tarde demais, que depois de quebrá-los em milhares de fragmentos, podemos continuar olhando para todos eles — e ainda assim já não saber exatamente qual deles mostra quem realmente somos.

Este artigo integra a série A República das Aparências, um conjunto de ensaios que utiliza literatura, filosofia e história para interpretar os desafios do Brasil e da sociedade contemporânea.

Leia também:
As Almas Mortas do Capital — Nikolai Gogol
O Teatro da República — William Shakespeare

Ricardo Bernardes é jornalista, editor, ilustrador e ensaísta. Escreve sobre literatura, política, democracia e cultura, explorando como grandes obras da filosofia e da literatura ajudam a interpretar o Brasil contemporâneo.

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