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Pepe Escobar vê “última janela” para acordo entre EUA e Irã 

Analista afirma que Teerã enviou alerta de retaliação “dez por um” e que negociações entre Irã e Omã podem abrir caminho para reduzir a tensão no estreito de Ormuz

O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirma que ainda existe uma “última janela” para evitar uma nova escalada entre Estados Unidos e Irã. Segundo ele, o memorando de entendimento entre Washington e Teerã está em “coma”, mas não morreu e pode ser reanimado por uma ampla articulação diplomática que envolve Irã, Omã, Paquistão, Qatar, China e outros países da região.

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A avaliação foi feita por Escobar em uma nova edição do programa Pepe Café, no YouTube. Para explicar o atual estágio da crise, o jornalista recorreu a uma metáfora inspirada em A Odisseia, de Homero: o acordo seria como um “gato em coma” em uma jangada, lançado de um lado para outro em um mar revolto, mas ainda sem afundar.

O gato em coma pode ressuscitar”, afirmou.

Segundo Escobar, o ponto decisivo neste momento é saber se o governo de Donald Trump aceitará manter aberta a via diplomática ou se partirá para uma nova ofensiva contra o Irã.

Tem uma última janelinha de possibilidade de ele sair do coma. Não se sabe por quanto tempo”, disse.

Trump teria recuado diante de alerta militar

Escobar sustenta que Trump esteve perto de ordenar uma ofensiva de grandes proporções contra o Irã, mas recuou no último momento depois de receber alertas sobre os riscos militares e econômicos de uma nova escalada.

Segundo o jornalista, comandantes do Pentágono teriam advertido o presidente norte-americano sobre o nível crítico de estoques de interceptadores e de armas defensivas.

Os próprios generais do Pentágono lhe disseram cara a cara: acabou tudo. A gente não tem mais praticamente nada, interceptadores, mísseis, nada”, relatou.

A afirmação é atribuída às fontes de Escobar e não foi confirmada publicamente pelo governo dos Estados Unidos.

Para o analista, o temor central seria que um novo ataque provocasse uma resposta iraniana em larga escala, obrigando Washington a consumir rapidamente o restante de seus sistemas de defesa.

Escobar também associa o recuo de Trump à pressão sobre as reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos e ao risco de uma disparada nos preços da energia em caso de nova escalada no Golfo Pérsico.

Dessa vez ele viu que todos os imperativos estavam contra ele”, afirmou.

Irã teria enviado ameaça de retaliação “dez por um”

Outro elemento central da análise é uma mensagem que, segundo Escobar, teria sido enviada pelo Irã à Casa Branca por meio de mediadores paquistaneses.

O recado seria direto: caso os Estados Unidos ataquem instalações civis de energia no território iraniano, Teerã responderia atingindo dez bases ou interesses norte-americanos para cada alvo atacado.

Escobar chamou a estratégia de “dez por um”.

Se vocês atacarem o nosso sistema elétrico e nossas fontes de energia civis, nós vamos atacar dez das suas bases e dos seus interesses”, afirmou ao relatar o conteúdo da mensagem.

Segundo ele, os alvos potenciais não estariam restritos ao Golfo Pérsico e poderiam incluir instalações norte-americanas no Iraque, na Jordânia e em outros pontos do Oriente Médio.

Escobar diz ter confirmado o conteúdo da mensagem com interlocutores ligados à mediação ao longo de vários dias.

Para o jornalista, a ameaça iraniana mudou os cálculos de Washington e elevou fortemente o preço de uma nova ofensiva.

Negociação entre Irã e Omã avança

Enquanto Washington e Teerã mantêm uma relação de forte tensão, Irã e Omã estariam próximos de concluir um acordo temporário relacionado à navegação no estreito de Ormuz, segundo Escobar.

O mecanismo teria caráter técnico e definiria regras para a circulação de navios na região, incluindo autorizações, controle de tráfego e possíveis cobranças ligadas à segurança marítima.

O que está acontecendo na prática é que o Irã e Omã estão praticamente a ponto de assinar um acordo temporário”, afirmou.

Escobar ressalta que não se trata, neste momento, de um acordo político abrangente entre Estados Unidos e Irã.

Segundo ele, os norte-americanos sequer participam diretamente das discussões técnicas entre Teerã e Mascate.

Não tem um acordo em cima para ser assinado. Não é isso”, disse.

Para o analista, a negociação no estreito de Ormuz pode, no entanto, representar o primeiro passo para uma redução mais ampla das tensões.

China atua nos bastidores, diz Escobar

Escobar afirma ainda que a mediação internacional é muito mais ampla do que aparece publicamente.

Além de Omã e Paquistão, Qatar, Turquia e Arábia Saudita estariam envolvidos em diferentes níveis de negociação.

Mas, segundo o jornalista, o ator mais importante nos bastidores seria a China.

Todo esse esforço de mediação é coordenado silenciosamente, no fundo, pela China”, afirmou.

Na avaliação de Escobar, Pequim tem interesse direto em evitar que a guerra provoque uma ruptura prolongada das rotas de energia entre o Golfo e a Ásia.

O jornalista destaca a convergência estratégica entre China, Paquistão e Irã e considera que os três países trabalham para impedir que a crise se transforme em um conflito regional sem controle.

“Trump se acha um Ulisses”

Grande parte do programa foi dedicada à Odisseia, de Homero, que Escobar utiliza como chave para interpretar tanto a guerra quanto o comportamento de Trump.

O jornalista traça um contraste entre Ulisses, símbolo da astúcia no poema homérico, e o presidente norte-americano.

Para Escobar, Trump cultiva a imagem de negociador imbatível, capaz de intimidar adversários e recuar quando lhe convém, mas a guerra contra o Irã estaria expondo os limites dessa estratégia.

Ele se acha um cara com swing e capaz de manipular todos os lados, imbatível e invencível. A guerra está provando que é exatamente o contrário”, afirmou.

O analista também recorreu à expressão “TACO”, sigla para “Trump Always Chickens Out”, usada por críticos do republicano para ironizar ameaças que terminam em recuo.

Na interpretação de Escobar, desta vez o recuo teria sido particularmente significativo porque não decorreu apenas de um cálculo político, mas do risco concreto de um conflito de consequências imprevisíveis para os Estados Unidos e seus aliados.

O memorando ainda não morreu

Apesar do quadro de tensão, Escobar sustenta que a diplomacia ainda está viva.

Para ele, o memorando entre Estados Unidos e Irã continua extremamente frágil, mas o avanço das negociações regionais mostra que ainda existe espaço para uma saída negociada.

O gato não está totalmente morto e pode ser que consiga chegar a Ítaca. Mas onde é Ítaca nessa história? Nem tem ainda”, disse.

A referência a Ítaca, destino final de Ulisses em A Odisseia, resume a visão do jornalista: ninguém sabe qual seria hoje o ponto de chegada possível de uma negociação entre Washington e Teerã.

Escobar considera, no entanto, que impedir uma nova ofensiva e criar um mecanismo funcional no estreito de Ormuz já seria um primeiro passo.

A gente está no meio de um épico, mas é um épico geopolítico”, concluiu.

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