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O Silêncio das Instituições

Ricardo Bernardes*

Há momentos em que uma democracia precisa que suas instituições saibam calar. O perigo começa quando ninguém mais consegue compreender por que elas permanecem em silêncio.

Antígona queria enterrar o irmão. Creonte tinha uma lei. Entre os dois havia uma cidade inteira tentando descobrir até onde poderia chegar a autoridade de um governante. Há quase 2.500 anos, Sófocles percebeu algo que continuamos aprendendo com dificuldade: instituições não entram em crise apenas quando deixam de funcionar. Às vezes entram em crise quando continuam funcionando — mas já não conseguem explicar à sociedade aquilo que estão fazendo.

Essa talvez seja uma das tensões mais delicadas da democracia contemporânea. Instituições precisam falar. Mas também precisam saber calar.

Uma investigação policial exige sigilo. Um juiz não pode antecipar sua decisão para satisfazer a ansiedade pública. O Ministério Público não deveria transformar suspeitas em condenações midiáticas. Autoridades reguladoras lidam com informações cuja divulgação precipitada pode produzir danos concretos. E nenhum cidadão deveria ter sua reputação destruída apenas porque uma investigação ainda inconclusa despertou interesse público.

O silêncio, portanto, nem sempre é omissão. Às vezes é responsabilidade.Mas existe uma fronteira. E talvez seja justamente nessa fronteira que comece a tragédia. Nos últimos meses, as investigações envolvendo o Banco Master produziram um cenário quase didático dessa tensão. A Polícia Federal continua apurando possíveis irregularidades nas operações entre o banco e o BRB. Novos laudos levaram os investigadores a pedir mais prazo e a ampliar diligências relacionadas a integrantes da antiga direção do banco público.

Ao mesmo tempo, outra dimensão apareceu nas investigações: a circulação indevida de informações que deveriam permanecer protegidas.

Em agosto, vieram a público relatos sobre suspeitas de vazamentos de informações internas durante o período em que o Banco Central acompanhava a situação do Master. Servidores foram colocados sob investigação, enquanto suas defesas sustentam que atuaram institucionalmente e colaboraram com as autoridades. As apurações permanecem em andamento.

E, no dia 19 de agosto, uma investigação sem relação direta necessária com o caso Master expôs o mesmo problema institucional por outro ângulo. A Polícia Federal deflagrou a Operação Sinon para investigar a suspeita de que informações sigilosas de investigações policiais fossem fornecidas indevidamente a investigados em troca de vantagens financeiras. Segundo a PF, esses dados poderiam ter sido usados para dificultar ou frustrar diligências. Os fatos são investigados, entre outros possíveis delitos, como violação de sigilo funcional e corrupção.

A coincidência ajuda a iluminar uma questão maior. Uma democracia precisa de segredos legítimos. Parece uma frase contraditória, mas não é. O voto precisa ser secreto. Uma investigação pode precisar permanecer reservada. Dados pessoais precisam ser protegidos. Deliberações sensíveis podem exigir confidencialidade temporária. Informações bancárias não pertencem à praça pública. A intimidade do cidadão também estabelece limites ao desejo coletivo de saber. Transparência democrática não significa que tudo precise ser conhecido por todos, imediatamente.

É exatamente por isso que precisamos distinguir duas coisas que parecem semelhantes, mas não são: sigilo e silêncio.

O sigilo democrático possui fundamento. Tem finalidade. Tem limites. Pode ser fiscalizado. E, em algum momento, precisa prestar contas de sua existência.

O silêncio institucional é mais perigoso quando não conseguimos saber se estamos diante de prudência, incapacidade, constrangimento ou autoproteção. Porque o vazio nunca permanece vazio por muito tempo. Alguém o ocupa. Pode ser por um vazamento, uma versão endereçada, uma postagem manipulada ou uma teoria conspiratória. Até um adversário político ou aliado. Talvez um influenciador. Ou por uma informação verdadeira misturada a três falsas. Quando a instituição não consegue dizer aquilo que pode dizer, outros começam a explicar aquilo que ela não disse. E a sociedade passa a construir respostas antes que a resposta institucional chegue.

Foi isso que a tragédia grega compreendeu tão cedo. Em Antígona, Creonte não é simplesmente um homem sem autoridade. É justamente o contrário. Ele possui autoridade. Possui um decreto. Possui força e razões de Estado.

O problema é que, progressivamente, perde a capacidade de escutar aquilo que existe fora da lógica do próprio poder.

Antígona reivindica uma obrigação que considera superior à ordem do rei: dar sepultura ao irmão Polinices. Creonte insiste. Outros tentam adverti-lo. Ele insiste. Quando finalmente compreende o tamanho da tragédia que ajudou a produzir, ainda possui poder. O que perdeu foi o tempo. Essa talvez seja uma das grandes lições políticas de Sófocles.

Instituições também podem falar tarde demais. E o tempo institucional tornou-se especialmente problemático numa sociedade em que a informação circula em segundos. Há uma tensão quase insolúvel. A investigação precisa de meses. A perícia precisa de semanas. O processo precisa respeitar prazos. O contraditório precisa existir. A prova precisa ser examinada. A instituição precisa ser prudente. A rede social quer a resposta agora. Nesse intervalo, nasce um território perigosíssimo. O território da suspeita.

É tentador responder a esse problema exigindo transparência absoluta e imediata. Seria um erro. A democracia não melhora quando investigações passam a funcionar como reality shows. Não melhora quando autoridades comentam provas que ainda não foram examinadas. Não melhora quando uma busca e apreensão passa a equivaler, aos olhos da opinião pública, a uma sentença condenatória. Não melhora quando o direito de defesa parece mero detalhe burocrático diante da velocidade das redes.

A espetacularização institucional também destrói confiança. Portanto, o dilema não é escolher entre silêncio e espetáculo. É encontrar o tempo democrático da palavra. Uma instituição madura precisa saber dizer: estamos investigando. Isto pode ser informado. Isto ainda não pode. Este é o procedimento. Estes são os controles. Esta é a autoridade responsável. Quando houver conclusão, haverá prestação de contas.

Pode parecer pouco. Em determinados momentos, é enorme.Porque confiança pública não depende de conhecer imediatamente todas as respostas. Depende também de saber que existe um caminho confiável para chegar até elas. É nesse ponto que silêncio e confiança se encontram.

Instituições não existem apenas para exercer competências formais. Existem também para tornar o exercício do poder compreensível, controlável e responsável diante da sociedade. Isso não significa transformar tribunais, polícias, bancos centrais, parlamentos ou governos em comentaristas permanentes de si mesmos. Significa compreender que a legitimidade democrática possui também uma dimensão comunicativa.O cidadão precisa conseguir distinguir uma instituição que está prudentemente calada de uma instituição que simplesmente se recusa a prestar contas.

Essa diferença não pode depender de fé. Precisa depender de regras. De controles. De prazos. De fiscalização. De transparência possível. E, finalmente, de respostas.

Toda instituição tem direito ao silêncio. Nenhuma democracia pode permitir que esse silêncio se transforme em ausência de prestação de contas.

Há ainda uma razão para isso. Quando instituições falham em ocupar legitimamente o espaço da explicação, a desconfiança deixa de precisar de provas. Ela passa a alimentar-se do próprio silêncio.

“Se não explicaram, alguma coisa existe.”

“Se está sob sigilo, estão escondendo.”

“Se demoraram, estão protegendo alguém.”

Essas conclusões podem ser inteiramente falsas. Mas prosperam porque oferecem uma resposta emocional para um vazio informacional. A partir daí, a própria prudência institucional pode começar a ser interpretada como culpa.

Esse é um paradoxo perigoso. Quanto mais a instituição precisa preservar determinada informação, maior pode ser a suspeita daqueles que exigem conhecê-la. E quanto maior a suspeita, maior a pressão para que a instituição revele aquilo que talvez ainda tenha o dever de proteger.

Democracias maduras precisam resistir às duas tentações. À tentação do segredo permanente. E à tentação da transparência irresponsável. Talvez por isso Antígona continue tão perturbadora. A tragédia não oferece ao leitor um mundo simples dividido entre instituições perversas e indivíduos virtuosos. Ela apresenta conflitos entre deveres:

Lei e consciência; Autoridade e limite; Ordem e humanidade; Palavra e escuta.

O desastre nasce quando uma dessas dimensões passa a acreditar que pode existir sem as outras. Nosso problema contemporâneo talvez seja semelhante. Queremos instituições fortes. Mas precisamos que possam ser fiscalizadas. Queremos investigações eficientes. Mas precisamos preservar direitos. Queremos transparência. Mas reconhecemos a necessidade de sigilo. Queremos respostas rápidas. Mas não deveríamos desejar conclusões apressadas. Queremos que o Estado fale. Mas também precisamos que ele saiba quando ainda não pode falar.

Não há solução confortável para essas contradições. Há apenas responsabilidade institucional. E responsabilidade significa compreender que silêncio não pode ser um esconderijo. Pode ser uma etapa. Nunca um destino.

Quando uma investigação termina, a sociedade precisa saber o que aconteceu. Quando uma suspeita não se confirma, isso também precisa ser dito. Quando houve erro, a instituição precisa reconhecê-lo. Quando houve crime, os responsáveis devem responder segundo a lei. Quando o sigilo deixa de ser necessário, a prestação de contas precisa ocupar seu lugar.

Memória democrática — como vimos ao discutir Orwell — não é guardar apenas a acusação. É acompanhar o fato até o fim.

Há uma diferença profunda entre uma instituição que diz “ainda não posso responder” e outra que simplesmente espera que a pergunta desapareça. A primeira pede tempo. A segunda aposta no esquecimento.

Creonte percebe tarde demais que autoridade não é apenas possuir o poder de ordenar. É conservar a capacidade de ser ouvido quando finalmente se decide falar.

Instituições também podem descobrir isso tarde demais. O silêncio pode proteger uma investigação, preservar direitos, impedir uma injustiça e até pode proteger a própria democracia. Mas chega um momento em que aquilo que não é explicado começa a ser explicado pelos outros.

E talvez seja essa a verdadeira fronteira que uma democracia precisa vigiar. Não o instante em que uma instituição se cala. Mas o instante em que já deveria ter falado. Porque o maior perigo do silêncio institucional não é deixar uma pergunta momentaneamente sem resposta. É permitir que a confiança desapareça antes que a resposta chegue.

Este artigo integra a série A República das Aparências, um conjunto de ensaios que utiliza literatura, filosofia e história para interpretar os desafios do Brasil e da sociedade contemporânea.

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Ricardo Bernardes é jornalista, editor, ilustrador e ensaísta. Escreve sobre literatura, política, democracia e cultura, explorando como grandes obras da filosofia e da literatura ajudam a interpretar o Brasil contemporâneo.

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