O Mercado do Medo
Ricardo Bernardes*
Hobbes compreendeu que o medo pode levar sociedades a trocar liberdade por proteção. Quase quatro séculos depois, descobrimos que ele também movimenta votos, audiência e dinheiro.
Thomas Hobbes escreveu sobre o medo numa Europa marcada por guerras, conflitos religiosos, epidemias e instabilidade política. Quase quatro séculos depois, carregamos o medo no bolso. Ele vibra. Emite notificações. Mostra imagens. Interrompe o jantar. E, cada vez mais, tenta nos vender alguma coisa. Às vezes, um produto ou proteção. Outras vezes, uma certeza.e até um candidato.
A campanha eleitoral brasileira começou oficialmente neste domingo, 16 de agosto. E a segurança pública já apareceu entre os temas centrais dos primeiros movimentos da disputa presidencial. Não é surpreendente. Pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha neste ano encontrou uma sociedade atravessada por diferentes formas de insegurança: medo de roubos, golpes digitais, violência letal, violência sexual e presença do crime organizado.
Esses medos não são imaginários. Esse é o ponto de partida indispensável.
Há pessoas que mudam trajetos para evitar determinadas ruas. Mulheres que reorganizam horários e hábitos por medo da violência. Famílias atingidas pelo crime. Trabalhadores vítimas de golpes. Comerciantes submetidos à insegurança. Comunidades convivendo com organizações criminosas.
Transformar tudo isso numa invenção midiática seria uma violência adicional contra quem experimenta o medo concretamente. A questão é outra. o que acontece depois que sentimos medo?
Hobbes tentou responder a essa pergunta no século XVII. Em Leviatã, publicado em 1651, descreveu uma humanidade ameaçada pela insegurança de uma existência sem poder comum capaz de conter a violência. O medo da morte e a necessidade de autopreservação ajudam a explicar por que indivíduos aceitariam limitar parte de sua liberdade em troca da segurança proporcionada por uma autoridade soberana.
O pacto hobbesiano contém a palavra silenciosa: “proteja-me”. Quase quatro séculos depois, essa palavra continua extraordinariamente poderosa. Mas descobrimos algo que Hobbes não poderia imaginar. A necessidade de proteção não movimenta apenas Estados. Movimenta mercados. Compramos seguros porque tememos perdas. Instalamos câmeras porque tememos invasões. Contratamos monitoramento porque tememos o crime. Usamos antivírus porque tememos golpes. Pagamos por sistemas de proteção porque tememos fraudes.
Consumimos notícias porque queremos saber onde está o perigo. E escolhemos governantes, entre muitas outras razões, porque esperamos que consigam nos proteger daquilo que nos ameaça.
O medo sempre foi uma emoção. Nosso tempo transformou-o também em modelo de negócios.
Isso não significa que todo produto de segurança seja exploração, que toda notícia sobre violência seja sensacionalismo ou que toda proposta política de combate ao crime seja manipulação. Significa apenas reconhecer um fato desconfortável: o medo possui valor, atenção, audiência, consumo, mobilização e voto.
E aquilo que possui valor inevitavelmente atrai quem deseja administrá-lo.Talvez o verdadeiro mercado do medo comece exatamente aí. Não quando alguém inventa uma ameaça inexistente, mas quando percebe que uma ameaça real pode ser ampliada, repetida, enquadrada e transformada numa presença emocional permanente.
Hobbes conheceu o medo da violência. Nós conhecemos também a violência em alta definição. O assalto ocorrido a centenas de quilômetros chega ao celular segundos depois. Uma agressão é filmada. A guerra transmite suas explosões quase em tempo real. O golpe aplicado numa cidade distante vira alerta nacional. Uma ameaça pronunciada pela manhã pode alcançar milhões de pessoas antes do almoço.
Nunca fomos testemunhas emocionais de tantos acontecimentos que não presenciamos fisicamente. Isso produz uma transformação importante. Nossa experiência do perigo já não depende apenas daquilo que acontece ao nosso redor. Depende também daquilo que chega até nós. Uma pessoa pode nunca ter presenciado determinado crime e, ainda assim, assistir repetidamente a imagens desse crime.
A vítima sofre a violência real. Milhões experimentam seu eco. É fundamental não confundir as duas experiências. Mas também seria ingênuo imaginar que a repetição não produz efeitos.
O medo possui uma característica especialmente valiosa para a economia da atenção:
é difícil desviar os olhos daquilo que pode nos ameaçar.
As plataformas digitais aprenderam a disputar segundos de atenção. A política aprendeu a disputar emoções. O mercado aprendeu a oferecer proteção. E o jornalismo, quando abandona sua responsabilidade, também pode descobrir que o perigo produz audiência.
Assim surge uma cadeia poderosa. A ameaça chama atenção. A atenção produz engajamento. O engajamento produz valor. E o valor incentiva a permanência da ameaça no centro da experiência pública. Não é necessário fabricar o incêndio. Às vezes basta manter a câmera apontada para as chamas.
É aqui que a campanha eleitoral de 2026 torna a discussão particularmente importante. Nos próximos meses, candidatos de diferentes posições políticas tentarão convencer o eleitor não apenas de que possuem o melhor projeto de país, mas também de que compreendem aquilo que ele deve temer.
Os objetos do medo serão diferentes: crime, desemprego. Inflação, corrupção, autoritarismo, perda de direitos, desordem social, crise institucional, retrocesso econômico e ameaça à democracia. Cada campo escolherá perigos que considera reais e alguns certamente serão. Mas existe uma estrutura política muito antiga por trás de boa parte desses discursos que “primeiro identifique a ameaça. Depois apresente-se como proteção.”
Hobbes reconheceria o mecanismo. Isso não torna ilegítimo o debate eleitoral sobre riscos. Democracias existem justamente para permitir que cidadãos discutam perigos reais e escolham caminhos diferentes para enfrentá-los. O problema começa quando a solução precisa da permanência do medo para continuar politicamente valiosa. Porque quem efetivamente resolve um problema diminui sua importância eleitoral. Quem administra sua existência pode explorá-lo indefinidamente. Essa distinção é essencial.
Há uma diferença entre combater a insegurança e precisar politicamente dela. Entre informar sobre uma ameaça e transformá-la em espetáculo. Entre alertar e aterrorizar. Entre proteger e prometer proteção em troca de obediência.
É nessa fronteira que o medo deixa de ser apenas sentimento e se torna poder. E talvez nenhuma emoção seja tão eficiente para reduzir o horizonte das escolhas humanas. Quando estamos tranquilos, conseguimos imaginar possibilidades. Mas quando estamos aterrorizados, procuramos saídas.
O medo comprime o futuro. Faz perguntas complexas parecerem simples. Transforma adversários em ameaças. Torna medidas excepcionais mais aceitáveis. Reduz a paciência para dúvidas. E aumenta nossa disposição para ouvir quem afirma possuir certeza. Essa talvez seja a dimensão mais profundamente hobbesiana do presente.Não é apenas que desejamos segurança. É que, diante do medo, podemos começar a aceitar quase qualquer pessoa que consiga representar convincentemente o papel de protetor.
Por isso, sociedades democráticas precisam fazer algo difícil: levar o medo a sério sem se deixar governar inteiramente por ele.
A mulher que teme a violência precisa de políticas públicas, não de uma palestra sobre percepção e a família ameaçada pelo crime precisa de segurança. Uma pessoa vítima de fraude precisa de investigação, prevenção e reparação. O medo legítimo exige resposta legítima.
Mas justamente por ser legítimo não deveria transformar-se em mercadoria política inesgotável. A democracia madura não diz ao cidadão que ele não deve ter medo. Pergunta por que ele tem medo. Mede o risco, investiga suas causas, discute soluções. E compara resultados. E, sobretudo, desconfia de quem precisa aumentar continuamente a ameaça para continuar oferecendo-se como única salvação possível.
Há uma diferença enorme entre proteção e dependência. Hobbes imaginou o Leviatã como resposta ao medo de uma sociedade entregue à insegurança. O século XXI multiplicou os candidatos a Leviatã. Os governos prometem proteção. As empresas vendem proteção. As Plataformas oferecem proteção. Os especialistas oferecem proteção. Os influenciadores oferecem certezas, políticos oferecem segurança.e, por fim, todos disputam, de alguma maneira, o direito de definir aquilo que merece nosso temor.
Talvez essa seja uma das grandes disputas de poder do nosso tempo.
Porque quem consegue definir aquilo que uma sociedade deve temer adquire enorme influência sobre aquilo que ela estará disposta a aceitar. Por isso, durante uma eleição, talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas “Quem pode me proteger?”. Mas também “Quem está tentando me convencer de que preciso ter medo?”
E por quê?
Thomas Hobbes escreveu sobre uma sociedade que buscava proteção diante do terror da violência e da morte. Nós construímos uma sociedade na qual o medo chega por uma pequena tela iluminada que carregamos no bolso. Ela vibra, emite uma notificação, mostra uma ameaça, oferece uma explicação, apresenta um culpado. E, logo depois, alguém aparece prometendo proteção.
Talvez o grande desafio democrático do nosso tempo seja aprender a interromper essa sequência por alguns segundos. Tempo suficiente para perguntar se o perigo é real. Qual é seu tamanho. Quem pode enfrentá-lo. E quem ganha quando continuamos assustados. Porque o medo pode nos avisar que existe um perigo. Pode até salvar nossa vida.
Mas, quando alguém começa a lucrar com ele, convém descobrir se ainda está tentando apagar o incêndio — ou apenas mantendo a câmera apontada para as chamas.
Este artigo integra a série A República das Aparências, um conjunto de ensaios que utiliza literatura, filosofia e história para interpretar os desafios do Brasil e da sociedade contemporânea.
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Ricardo Bernardes é jornalista, editor, ilustrador e ensaísta. Escreve sobre literatura, política, democracia e cultura, explorando como grandes obras da filosofia e da literatura ajudam a interpretar o Brasil contemporâneo.