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Casas Bahia tem prejuízo de R$ 10,1 bilhões e admite possibilidade de recuperação judicial

EY não emite conclusão sobre balanço diante de incertezas sobre continuidade da varejista, que fechou 298 lojas e teve captação internacional frustrada

O Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, em meio à deterioração de sua situação financeira e a dúvidas sobre a capacidade de manter as operações. A varejista também informou que avalia alternativas para reorganizar sua estrutura de capital, entre elas uma nova recuperação extrajudicial ou uma recuperação judicial.Play Video

As informações constam das demonstrações financeiras divulgadas na madrugada deste domingo (16) e foram destacadas pelo Brazil Stock Guide. O balanço veio acompanhado de relatório no qual a Ernst & Young (EY) se absteve de emitir uma conclusão sobre as informações financeiras da companhia diante de uma incerteza relevante relacionada à continuidade operacional.

A perda de R$ 10,1 bilhões no trimestre representa uma forte deterioração em relação ao prejuízo de R$ 555 milhões registrado no mesmo período de 2025. No acumulado do primeiro semestre, as perdas chegaram a R$ 11,2 bilhões.

O relatório da EY, datado de sábado (15), aponta ainda capital circulante líquido negativo e patrimônio líquido negativo em R$ 8,27 bilhões. Segundo a auditoria, esses e outros fatores indicam uma incerteza relevante capaz de gerar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da Casas Bahia.

A EY afirmou que não conseguiu realizar procedimentos de revisão suficientes para fundamentar uma conclusão sobre as informações financeiras. A auditoria também destacou que a companhia depende do sucesso de medidas operacionais e financeiras para atender às necessidades de capital de giro e honrar obrigações nos vencimentos contratados.

Diante desse quadro, a EY informou que tampouco conseguiu concluir sobre a utilização da base contábil de continuidade operacional adotada pela varejista.

Captação internacional fracassa e pressiona liquidez

Um dos principais fatores de pressão sobre a situação financeira da Casas Bahia foi o fracasso de uma captação internacional considerada pela própria companhia de “extrema relevância” para seu planejamento financeiro durante o segundo trimestre.

Segundo as notas explicativas, a negociação estava em estágio avançado. Os procedimentos de due diligence e a negociação da documentação jurídica já haviam sido concluídos, mas o investidor-âncora desistiu da operação.

A companhia não revelou a identidade desse investidor nem o montante que pretendia captar. O relatório da administração informa que havia um investidor-âncora confirmado e um processo de bookbuilding estruturado antes da interrupção das negociações.

Outras tentativas de obtenção de liquidez, entre elas empréstimos-ponte, também não foram concretizadas dentro dos prazos e das condições inicialmente considerados pela administração.

A Casas Bahia informou ainda possuir R$ 6,3 bilhões em créditos fiscais federais e estaduais. A companhia, porém, enfrenta dificuldades para monetizar e utilizar esses ativos, o que restringe o acesso imediato aos recursos.

Recuperação judicial aparece entre alternativas

Em meio à pressão financeira, a administração informou que mantém negociações com fornecedores, instituições financeiras e outros credores e analisa medidas destinadas a reforçar a liquidez e reorganizar a estrutura de capital.

Entre as possibilidades mencionadas nas notas explicativas estão uma nova recuperação extrajudicial e uma recuperação judicial.

A varejista ressalvou, contudo, que não há garantia de adoção dessas medidas nem de que as iniciativas atualmente em andamento produzirão os resultados esperados nos valores e prazos considerados pela administração.

As demonstrações financeiras foram elaboradas com base no pressuposto de continuidade operacional. Por isso, não incorporam eventuais efeitos decorrentes de um processo formal de reestruturação das dívidas e demais obrigações.

Estoques caem R$ 1,16 bilhão em três meses

A combinação entre a captação internacional frustrada, a menor oferta de crédito comercial e financeiro e os custos elevados de financiamento afetou a capacidade de compra da Casas Bahia.

Os estoques consolidados recuaram de R$ 5,4 bilhões em março para R$ 4,24 bilhões em junho — redução de R$ 1,16 bilhão em apenas três meses. O indicador de dias de estoque passou de 95 para 75 dias.

De acordo com a empresa, a queda resulta tanto de medidas destinadas a aumentar a disciplina na gestão do capital de giro quanto das restrições de crédito e de compras. Essas limitações reduziram a disponibilidade de produtos em determinadas categorias, lojas e canais de venda.

Baixas contábeis pesam sobre prejuízo

Parte substancial do prejuízo bilionário decorreu de efeitos contábeis não recorrentes relacionados à revisão das projeções da companhia.

Entre os principais impactos estão uma baixa de R$ 5,7 bilhões em ativos fiscais diferidos, aproximadamente R$ 970 milhões em impairment de ágio e R$ 1,8 bilhão em provisões associadas a revisões contratuais, reorganização do quadro de funcionários e fechamento de lojas.

Mesmo quando esses efeitos são retirados do cálculo, porém, os números mostram piora. O prejuízo líquido ajustado alcançou R$ 978 milhões no segundo trimestre, contra R$ 555 milhões no mesmo intervalo do ano passado.

A receita líquida aumentou 1,6%, para aproximadamente R$ 7 bilhões. Já o EBITDA ajustado recuou 9,4%, para R$ 518 milhões.

A margem EBITDA ajustada caiu de 8,3% para 7,4% na comparação anual. Em sentido contrário, a margem bruta avançou 2,8 pontos percentuais e chegou a 32,9%.

Casas Bahia fecha 298 lojas

A crise financeira também levou a companhia a acelerar a segunda etapa de seu plano de transformação. Ao todo, foram fechadas 298 lojas.

A estratégia passou a priorizar geração de caixa, rentabilidade e retorno sobre o capital, em detrimento da busca por maior volume de vendas. Segundo a Casas Bahia, as restrições no mercado de crédito, a captação internacional que não se concretizou e a fraqueza do consumo exigiram uma operação em escala menor.

O plano contempla ainda redução estrutural de custos e investimentos, revisão dos níveis de estoque, diminuição do capital empregado e maior seletividade nas operações dos canais digitais.

A divulgação do resultado estava inicialmente prevista para sexta-feira (14), após o fechamento do mercado, mas as demonstrações financeiras foram publicadas por volta das 2h deste domingo (16).

Por Brasil247

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