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As Almas Mortas do Capital

Ricardo Bernardes*

Há livros que envelhecem. Outros, misteriosamente, parecem esperar décadas às vezes séculos pelo momento exato de se tornarem atuais. É o caso de Almas Mortas, obra publicada em 1842 por Nikolai Gogol e que continua sendo uma das mais perturbadoras radiografias morais já escritas sobre uma sociedade fascinada pelas aparências.

O protagonista do romance, Pavel Tchítchikov, percorre propriedades rurais da Rússia czarista comprando “almas mortas”: servos que já haviam falecido, mas que continuavam registrados nos censos oficiais do Estado. Como os proprietários ainda pagavam impostos sobre esses nomes, livrar-se deles era conveniente. Tchítchikov percebe então uma oportunidade extraordinária: acumular centenas de “almas” inexistentes e utilizá-las como demonstração artificial de riqueza e patrimônio.

O que parecia apenas uma sátira grotesca da burocracia russa tornou-se, com o tempo, uma metáfora assustadoramente universal. Gogol compreendeu algo profundo: sociedades em decadência começam a negociar fantasmas. Não riqueza concreta, não produção real, não valor sólido mas projeções, registros, aparências e ilusões cuidadosamente embaladas para sustentar estruturas de poder.

É impossível observar certas engrenagens do capitalismo contemporâneo sem lembrar dessa imagem literária.

As recentes investigações envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, recolocaram no centro do debate público temas como operações financeiras de alto risco, aquisição de carteiras problemáticas, valorização de ativos deteriorados e a delicada fronteira entre engenharia financeira agressiva e fragilidade sistêmica. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a Polícia Federal apura suspeitas relacionadas a operações financeiras complexas e possíveis irregularidades envolvendo ativos e estruturas de crédito.

O ponto mais inquietante talvez não esteja apenas nas suspeitas específicas que caberá às autoridades investigar. Está no ambiente cultural e econômico que permite que ativos fragilizados sejam frequentemente transformados em sinais de prosperidade, expansão e poder.

Em Gogol, os mortos continuavam gerando valores porque permaneciam vivos nos registros. No capitalismo financeirizado do século XXI, títulos deteriorados, créditos improváveis ou expectativas artificiais muitas vezes continuam circulando como se carregassem vitalidade própria. Mudam os instrumentos; permanece a lógica da ficção transformada em patrimônio.

A literatura de Gogol ajuda a compreender algo que a linguagem econômica frequentemente esconde sob siglas, pareceres técnicos e gráficos sofisticados: a transformação da aparência em ativo negociável.

Não se trata aqui de antecipar condenações ou substituir investigações. A prudência institucional exige o respeito ao devido processo legal e à presunção de inocência. O problema é mais amplo e talvez mais grave. Trata-se de um modelo econômico que, em muitos momentos, parece recompensar menos a criação de riqueza concreta do que a capacidade de reorganizar simbolicamente riscos, passivos e expectativas.

O capitalismo contemporâneo desenvolveu uma habilidade extraordinária: converter fragilidade em narrativa de sucesso.

E isso não acontece apenas nos mercados financeiros. Está na política, na comunicação, nas redes sociais e até nas instituições públicas. O Brasil tornou-se, em muitos aspectos, um território onde a estética da solidez frequentemente importa mais do que a própria solidez.

Gogol entenderia perfeitamente esse ambiente.

Em Almas Mortas, praticamente todos os personagens vivem aprisionados numa encenação permanente. Fazendeiros fingem prosperidade. Funcionários simulam eficiência. Autoridades representam autoridade. Tudo funciona pela manutenção coletiva da aparência. O sistema não entra em colapso porque todos acreditam na mentira, mas porque todos passam a depender dela.

Essa talvez seja a verdadeira atualidade do romance.

O risco não está apenas em operações eventualmente irregulares. O risco maior surge quando sociedades inteiras começam a naturalizar mecanismos que produzem valor artificial dissociado da economia real, da produção concreta e da confiança pública genuína.

Toda civilização depende de uma espécie de pacto invisível de credibilidade. Bancos dependem disso. Moedas dependem disso. Democracias dependem disso. Quando a confiança coletiva começa a ser substituída por encenações sofisticadas de estabilidade, a deterioração deixa de ser apenas financeira torna-se moral.

E crises morais raramente permanecem restritas aos balanços.

O Brasil vive hoje uma perigosa convivência entre hipercomplexidade financeira e fragilidade institucional. O cidadão comum mal consegue compreender os mecanismos que movem parte significativa do sistema econômico. Nesse vazio de compreensão, proliferam discursos técnicos capazes de transformar operações obscuras em símbolos de modernidade e ousadia empresarial.

Gogol já conhecia esse mecanismo há quase dois séculos: quanto mais absurda a operação, mais impressionados ficavam os que a observavam.

Talvez por isso Almas Mortas permaneça tão desconfortavelmente atual. Porque o romance não fala apenas sobre corrupção burocrática na Rússia imperial. Fala sobre sociedades que aprendem a lucrar com abstrações vazias enquanto perdem, lentamente, a capacidade de distinguir substância de performance.

E provavelmente esteja aí a pergunta mais importante do nosso tempo.

Quantas “almas mortas” circulam hoje entre nós?

Não apenas nos registros financeiros, mas nas instituições, nos discursos públicos, nas promessas econômicas e nas narrativas de prosperidade que dependem permanentemente de novas camadas de ilusão para continuar existindo.

Gogol percebeu antes de todos que o perigo nunca esteve apenas nos mortos. O verdadeiro perigo começa quando os vivos deixam de perceber a diferença.

Este artigo integra a série “A República das Aparências”, um conjunto de ensaios que utiliza literatura, filosofia e história para interpretar os desafios do Brasil contemporâneo.

*Ricardo Bernardes é jornalista, editor e ensaísta. Escreve sobre literatura, política, democracia e cultura, explorando como grandes obras da filosofia e da literatura ajudam a interpretar o Brasil contemporâneo.

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