Ricardo Bernardes*
A rejeição de Jorge Messias para o Supremo revelou uma política em que governar parece cada vez mais inseparável da necessidade de representar o poder.
Shakespeare compreendia uma verdade desconfortável: o poder nunca se contenta apenas em governar. Precisa ser visto governando. Necessita de palco, linguagem, figurino, símbolos e plateia. Talvez por isso Brasília pareça, cada vez mais, uma tragédia shakespeariana escrita diante das câmeras — com atos públicos, pactos de bastidor e personagens empenhados em controlar não apenas as decisões, mas também o significado de cada cena.
Em 29 de abril de 2026, o Senado rejeitou, por 42 votos a 34, a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Eram necessários ao menos 41 votos favoráveis. Mais do que uma derrota do governo, o resultado rompeu uma longa rotina institucional: desde 1894, o Senado não recusava uma indicação presidencial para a mais alta Corte do país.
A raridade histórica do episódio deveria bastar para provocar uma discussão séria sobre as relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Mas, no ambiente político contemporâneo, nenhum fato permanece apenas dentro de seus limites institucionais. Antes mesmo de ser plenamente compreendido, precisa transformar-se em narrativa.
A indicação de Messias foi precedida por articulações públicas e reservadas, resistência de grupos no Senado e uma intensa tentativa do governo de reunir os votos necessários. O resultado foi interpretado simultaneamente como derrota presidencial, demonstração de força do Senado, reflexo das tensões com o Supremo e antecipação do clima eleitoral.
O episódio deixou de ser apenas uma votação.
Tornou-se uma representação nacional da disputa pelo poder.
Em Brasília, já não parece suficiente vencer. É preciso parecer vencedor. Não basta preservar uma prerrogativa constitucional; é necessário apresentá-la como sinal de independência, coragem ou autoridade. Do outro lado, uma derrota dificilmente pode ser reconhecida apenas como derrota: precisa ser reorganizada como resistência, aprendizado democrático ou consequência de forças maiores.
A política contemporânea constrói personagens ao mesmo tempo que toma decisões.
A República converteu-se num palco simultâneo no qual Executivo, Legislativo e Judiciário disputam influência concreta e domínio simbólico sobre a opinião pública. Cada crise precisa produzir uma imagem. Cada confronto necessita de protagonistas. Cada gesto é analisado como mensagem cifrada. Cada silêncio recebe interpretação própria.
Shakespeare entenderia perfeitamente esse ambiente.
Em Macbeth, a ambição destrói gradualmente a fronteira entre poder e delírio. Em Júlio César, discursos públicos e conspirações privadas compõem partes inseparáveis da política. Em Rei Lear, a vaidade dos governantes corrói as estruturas do próprio reino. Nessas obras, o palco não é simples cenário. Ele modifica os personagens, amplia seus desejos e transforma decisões políticas em destinos trágicos.
É possível que algo semelhante esteja acontecendo com a democracia contemporânea.
A política passou a funcionar sob iluminação permanente. Não existe bastidor absoluto, silêncio duradouro ou gesto inteiramente neutro. Reuniões vazam. Declarações são recortadas. Discursos tornam-se vídeos curtos. Expressões faciais ganham interpretação política. Uma frase pode valer menos por aquilo que esclarece do que pela velocidade com que circula.
Nesse ambiente, governar exige habilidades de representação pública.
O perigo começa quando a estética da autoridade se torna mais importante do que a autoridade propriamente dita. A imagem supera o conteúdo. O discurso ocupa o lugar da decisão. A frase viral substitui a construção lenta de consensos. A demonstração pública de força passa a valer mais do que a capacidade de produzir estabilidade institucional.
A democracia torna-se emocionalmente acelerada.
O conflito entre os Poderes não é, por si só, um problema. Ao contrário: tensões, limites e controles recíprocos pertencem à natureza dos regimes democráticos. O risco surge quando a dramatização do conflito produz mais recompensa política do que sua solução.
Crises passam a alimentar novas crises porque a tensão também gera audiência, mobilização, identidade partidária e capital simbólico. A conciliação torna-se difícil de apresentar ao público, pois quase sempre parece menos heroica do que o confronto. A negociação, fundamento silencioso da democracia, perde espaço para gestos de ruptura capazes de dominar o noticiário.
Em muitos momentos, Brasília parece governada não apenas pela Constituição, mas também pela lógica do roteiro.
O cidadão, diante desse espetáculo contínuo, passa a enxergar as instituições como personagens rivais de uma série política interminável. Julgamentos tornam-se capítulos. Votações parecem finais de temporada. Declarações são avaliadas menos por seu conteúdo institucional do que por sua capacidade de humilhar adversários, mobilizar seguidores ou produzir repercussão.
O país entra num estado de hiperdramatização.
É verdade que a política sempre teve dimensão teatral. A autoridade depende de cerimônias, símbolos, discursos e formas públicas de representação. Presidentes, parlamentares e magistrados não falam apenas como indivíduos: representam instituições e, por isso, participam de rituais que ajudam a sustentar a ordem republicana.
Mas há uma diferença essencial entre representar uma instituição e transformar a instituição em instrumento de uma performance.
Quando o palco ocupa espaço demais, os personagens começam a amar mais o próprio papel do que a República que deveriam servir.
Shakespeare conhecia esse perigo.
Em suas tragédias, os grandes colapsos raramente começam apenas com a ambição. Começam quando os protagonistas deixam de distinguir o exercício do poder da necessidade de demonstrá-lo. O reino se enfraquece quando parecer forte passa a ser mais importante do que preservar as estruturas que o mantêm de pé.
A rejeição de Jorge Messias não precisa ser interpretada como tragédia, golpe ou triunfo definitivo de qualquer dos lados. O Senado exerceu uma atribuição prevista na Constituição, e o presidente da República conserva a prerrogativa de apresentar outro nome.
Mas a maneira como o episódio foi construído, disputado e absorvido pela vida pública oferece uma imagem reveladora do presente.
O maior desafio da democracia brasileira talvez seja impedir que a política se converta numa sucessão infinita de cenas intensas, personagens grandiosos e confrontos espetaculares incapazes de reconstruir a confiança pública.
Democracias sobrevivem às derrotas, às divergências e aos conflitos entre instituições.
O que dificilmente conseguem suportar é o momento em que todos passam a representar a República — e quase ninguém se lembra de governá-la.
Este artigo integra a série “A República das Aparências”, um conjunto de ensaios que utiliza literatura, filosofia e história para interpretar os desafios do Brasil contemporâneo.
*Ricardo Bernardes é jornalista, editor e ensaísta. Escreve sobre literatura, política, democracia e cultura, explorando como grandes obras da filosofia e da literatura ajudam a interpretar o Brasil contemporâneo.