Lula afirma que o Brasil não pode ser apenas consumidor da tecnologia dos outros

Em reunião no Planalto Lula cobra plano nacional para inteligência artificial e discute autonomia tecnológica e minerais críticos

O governo federal busca definir uma estratégia própria para a inteligência artificial depois de mais de dois anos de discussões internas. Em reunião no Palácio do Planalto, na noite de terça-feira (11), o presidente Lula cobrou uma decisão administrativa, defendeu a soberania digital e tratou dos possíveis efeitos da tecnologia sobre as eleições e o desenvolvimento nacional. 

O encontro reuniu ministros, acadêmicos, especialistas e executivos do setor tecnológico. Lula afirmou que o Brasil pretende ingressar definitivamente em uma nova etapa no uso da inteligência artificial, embora não tenha anunciado programas, investimentos, prioridades operacionais ou prazos para colocar a estratégia em prática.

“Essa reunião é o começo definitivo que vamos entrar na era da IA, não tem mais volta”, afirmou o presidente.

Decisão é cobrada após dois anos de debates

Ao avaliar as apresentações feitas durante a reunião, Lula sustentou que o Brasil deve desenvolver capacidades tecnológicas próprias. A prioridade, segundo ele, não seria competir imediatamente com as duas maiores potências mundiais do setor, mas utilizar a inteligência artificial de acordo com as necessidades e os interesses do país.

“Hoje, vocês venderam a certeza de que estamos prontos não para disputar com a China e Estados Unidos, mas conosco e fazer o que temos que fazer aquilo que temos de importante para fazer de IA”, declarou.

O presidente reconheceu que o assunto é debatido no governo há mais de dois anos. Diante da falta de uma orientação administrativa consolidada, resumiu a cobrança aos participantes do encontro. “Precisamos decidir”, disse Lula

Ainda permanecem em aberto questões como a coordenação entre os ministérios, as fontes de financiamento e as áreas tecnológicas que serão tratadas como prioritárias.

Soberania digital mobiliza 12 áreas do Executivo

A defesa da soberania digital orientou a reunião. O conceito está relacionado à capacidade do Brasil de tomar decisões próprias sobre infraestrutura tecnológica, dados, segurança institucional e desenvolvimento de soluções nacionais.

Representantes de 12 áreas do Executivo participaram das discussões. Estiveram presentes integrantes da Fazenda, Casa Civil, Relações Exteriores, Segurança, Comunicações, Minas e Energia, Planejamento e Orçamento, Gestão e Inovação em Serviços Públicos e Ciência e Tecnologia, entre outros setores.

A lista incluiu Dario Durigan, da Fazenda; Márcio Elias, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; Míriam Belchior, da Casa Civil; Wellington César Lima, da Segurança; Mauro Vieira, das Relações Exteriores; Alexandre Silveira, de Minas e Energia; e Bruno Moretti, do Planejamento e Orçamento.

Também participaram Frederico Siqueira Filho, das Comunicações; o general Marcos Amaro, do Gabinete de Segurança Institucional; Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação Social; Esther Dweck, da Gestão e Inovação em Serviços Públicos; e Luciana Santos, da Ciência e Tecnologia. O vice-presidente Geraldo Alckmin também acompanhou o encontro.

A presença de integrantes das áreas econômica, diplomática, científica, administrativa, energética e de segurança demonstrou o caráter transversal da discussão. A formulação de uma política de inteligência artificial envolve desde infraestrutura e capacidade computacional até proteção de dados, comunicações e segurança das instituições.

Universidades e empresas integram discussão

O governo também convidou pesquisadores e profissionais do setor privado para apresentar diferentes perspectivas sobre os desafios tecnológicos enfrentados pelo Brasil.

Entre os representantes das universidades estavam Edson Borin e Anderson Rocha, professores do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Marco Aurélio Cepik, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

O setor empresarial contou com Marília Maciel, diretora de Comércio Digital e Segurança Econômica da Diplo Foundation, e Mateus Velloso, diretor de Produto da Docker.

A composição do encontro procurou aproximar o conhecimento produzido nas universidades, a experiência das empresas e a capacidade de formulação do poder público. O objetivo político apresentado por Lula foi transformar as discussões acumuladas pelo governo em uma orientação concreta para o uso e o desenvolvimento da tecnologia.

Terras raras voltam à agenda presidencial

Lula também retomou a discussão sobre minerais críticos e terras raras, recursos considerados relevantes para diferentes cadeias tecnológicas. O assunto havia sido debatido em julho, quando o presidente reuniu ministros e especialistas e afirmou que o Executivo mudaria sua postura em relação ao setor.

Na ocasião, porém, o governo também não apresentou ações concretas. Ao mencionar aquela agenda na reunião sobre inteligência artificial, Lula defendeu a realização de um novo encontro, desta vez com menos participantes.

“Está na hora de convocar outra reunião, menor que aquela”, afirmou.

A referência aos minerais críticos aproximou duas frentes tratadas pelo governo como estratégicas: o desenvolvimento de capacidades nacionais em inteligência artificial e a definição de uma política para recursos utilizados pela indústria tecnológica. Nos dois temas, Lula indicou a intenção de alterar a atuação do Executivo, mas as medidas, os investimentos e os prazos ainda deverão ser definidos.

Comments (0)
Add Comment