Edição especial recupera documentos do SNI, imagens dos danos e a sequência de ataques de grupos de extrema-direita em 1976
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) relembra nesta semana os 50 anos do atentado a bomba que atingiu sua sede, no centro do Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 1976, durante a ditadura militar. Para marcar a data, a entidade lançou uma edição especial de seu boletim com documentos históricos, registros produzidos pelos órgãos de informação do regime e fotografias dos estragos provocados pela explosão.
Segundo reportagem da Agência Brasil, publicada a partir das informações divulgadas pela ABI, o material recupera não apenas o ataque contra a entidade, mas também o ambiente de violência política e vigilância sobre organizações da sociedade civil que defendiam a liberdade de expressão e a abertura democrática.
A bomba explodiu no sétimo andar do edifício da ABI, na Rua Araújo Porto Alegre, nº 71, próximo à sala da presidência. Dois banheiros foram destruídos, enquanto salas vizinhas, o elevador e outros dois pavimentos sofreram danos. Ninguém ficou ferido.
O ataque completa meio século na quarta-feira (19). Na mesma data, às 17h, a ABI realizará uma cerimônia no sétimo andar do edifício, onde será instalada uma placa em repúdio ao terrorismo e em defesa da democracia.
Grupo de extrema-direita reivindicou atentado
A Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), organização paramilitar de extrema-direita, assumiu a autoria do ataque por meio de um panfleto deixado no prédio depois da explosão. O grupo acusava a ABI de estar “totalmente dominada pelos comunistas” e dizia que a associação havia sido escolhida para receber a “primeira advertência”.
O atual presidente da ABI, Octávio Costa, relaciona a ofensiva à atuação da entidade em defesa de direitos e garantias democráticas durante o regime.
“Ao defender a liberdade de imprensa, os direitos humanos e a livre manifestação do pensamento, tornou-se também alvo da intolerância de grupos radicais de extrema-direita, contrários aos incipientes movimentos de abertura política – a chamada ‘distensão’ do regime ditatorial”
Na época do atentado, a ABI era presidida pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho. A instituição reunia ainda nomes importantes da imprensa brasileira, como Alberto Dines, Maurício Azêdo, Marcelo Beraba e Odylo Costa Filho.
Documentos revelam alcance da vigilância do SNI
Lançada no sábado (15), a edição especial do Boletim da ABI foi organizada pelo conselheiro Geraldo Cantarino e utiliza como uma de suas principais referências a edição de julho e agosto de 1976 da própria publicação, preparada logo após o atentado.
Outro documento destacado é um informe confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI), produzido em setembro daquele ano e posteriormente disponibilizado pelo projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional.
De acordo com a ABI, o documento demonstra o nível de acompanhamento exercido pelos órgãos de segurança sobre reuniões, acontecimentos e movimentações internas da associação.
“Esse registro ajuda, assim, a dimensionar o aparato de vigilância política que atuava naquele período”
O material também reúne fotografias das áreas destruídas no edifício de 13 andares, inaugurado em 1938 e considerado uma referência da arquitetura moderna brasileira. O imóvel permanece como sede da ABI.
Ataque ocorreu em meio a série de ações terroristas
A entidade sustenta que a explosão de 1976 não pode ser analisada como um episódio isolado. O ataque ocorreu durante uma sequência de ações violentas destinadas a intimidar instituições e setores da sociedade que defendiam a ampliação das liberdades políticas.
No mesmo 19 de agosto, uma bomba atribuída à AAB foi colocada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também no Rio de Janeiro. O artefato não explodiu devido a uma falha no mecanismo de detonação.
No dia seguinte, 20 de agosto, dois coquetéis molotov foram lançados durante a madrugada contra a 1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar, em Porto Alegre, provocando um princípio de incêndio.
Em 4 de setembro de 1976, outra bomba, de fabricação caseira, explodiu no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo.
Dados publicados à época pelo Jornal do Brasil apontaram nove atentados terroristas no Rio de Janeiro entre agosto e novembro de 1976. Oito deles teriam sido reivindicados pela Aliança Anticomunista Brasileira.
“Apesar disso, o aparato de inteligência e repressão nunca chegou aos autores dos atentados”
Violência tentava frear abertura política
Os ataques ocorreram durante o governo do general Ernesto Geisel, que havia assumido a Presidência em 1974 e defendia uma abertura política definida pelo próprio regime como “lenta, gradual e segura”.
Segundo a ABI, grupos contrários à distensão recorreram à violência e à intimidação para tentar conter o avanço das liberdades democráticas. A instituição considera que a recuperação desses documentos também funciona como alerta sobre a necessidade de proteção permanente à liberdade de imprensa e às instituições democráticas.
Durante a homenagem da quarta-feira (19), a entidade pretende reafirmar esse compromisso ao instalar a placa alusiva aos 50 anos do atentado. “A Casa do Jornalista permanecerá vigilante diante de qualquer ameaça ao Estado Democrático de Direito.”