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Agressão comercial de Trump não mira apenas o Brasil e atinge 60 países

Com fortes déficits comerciais, governo dos Estados Unidos tenta destruir as bases da globalização e do comércio internacional justo

A nova ofensiva tarifária do governo de Donald Trump não tem o Brasil como alvo exclusivo. Os Estados Unidos passaram a aplicar tarifas adicionais de 10% e 12,5% sobre produtos provenientes de cerca de 60 países e da União Europeia, numa medida que atinge praticamente toda a rede de parceiros comerciais da maior economia do mundo.Play Video

Sob a alegação de combater o trabalho forçado e práticas comerciais consideradas injustas, Washington ampliou drasticamente o alcance de suas barreiras alfandegárias. As novas tarifas abrangem 99,4% das importações norte-americanas, embora o governo tenha criado uma extensa lista de exceções para evitar prejuízos às cadeias produtivas, ao abastecimento e à inflação interna.

As informações são da Reuters.

Trabalho forçado é usado como justificativa para protecionismo

A administração Trump afirma que as tarifas foram adotadas para punir países que supostamente não aplicam de maneira adequada proibições relacionadas ao trabalho forçado.

A justificativa, no entanto, foi rechaçada por diversos governos atingidos, que acusam os Estados Unidos de manipular uma pauta ligada aos direitos humanos para sustentar uma política essencialmente protecionista.

União Europeia, Brasil, Austrália e Noruega estão entre os países que contestaram as acusações e classificaram as medidas como injustificadas e sem fundamento consistente.

No caso brasileiro, o governo destacou que o país ratificou todos os principais instrumentos da Organização Internacional do Trabalho voltados ao combate ao trabalho forçado, enquanto os Estados Unidos aderiram a apenas uma parte limitada dessas normas.

Tarifas atingem quase todas as importações americanas

As novas medidas foram implementadas com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974.

O dispositivo permite ao governo norte-americano investigar e retaliar práticas estrangeiras consideradas discriminatórias ou prejudiciais aos interesses comerciais dos Estados Unidos.

Com o uso da Seção 301, a administração Trump conseguiu preservar tarifas sobre quase todas as importações do país, mesmo depois de decisões judiciais que haviam colocado em dúvida outros instrumentos utilizados anteriormente para sustentar o tarifaço.

Analistas citados pela Reuters avaliam que as medidas baseadas na Seção 301 poderão ser mais difíceis de derrubar nos tribunais norte-americanos, uma vez que o mecanismo já resistiu a contestações jurídicas anteriores.

Déficits comerciais estão no centro da estratégia

Embora o governo Trump apresente argumentos trabalhistas e humanitários, a ofensiva tarifária ocorre em meio à preocupação dos Estados Unidos com seus persistentes déficits comerciais.

A administração norte-americana tenta reduzir importações, estimular a produção doméstica e forçar outros países a abrir seus mercados às empresas dos Estados Unidos.

A política rompe com princípios que orientaram a globalização econômica nas últimas décadas, como a redução negociada de tarifas, o tratamento não discriminatório entre parceiros e a solução de controvérsias por meio de instituições multilaterais.

Em lugar desses mecanismos, Washington passou a adotar ameaças, sanções e exigências unilaterais, utilizando o tamanho do mercado norte-americano como instrumento de pressão.

Produtos essenciais foram poupados

Apesar da amplitude das tarifas, o governo dos Estados Unidos criou exceções para produtos considerados indispensáveis à economia interna.

Entre os itens poupados estão petróleo, gás natural, fertilizantes, determinados alimentos, aeronaves, componentes industriais, minerais críticos e mercadorias altamente integradas às cadeias produtivas norte-americanas.

Também foram preservados produtos que atendem às regras do Acordo Estados Unidos-México-Canadá, em razão da forte integração econômica entre os três países.

As exceções evidenciam que Washington procurou evitar aumentos de preços e problemas de abastecimento dentro dos próprios Estados Unidos.

Brasil e União Europeia protestam

O Brasil rechaçou as novas tarifas e anunciou que deverá contestá-las no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

O governo brasileiro também iniciou os procedimentos para utilizar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite responder a medidas consideradas arbitrárias ou discriminatórias.

A União Europeia afirmou que as acusações relativas ao trabalho forçado não correspondem à realidade de sua legislação e de seus mecanismos de fiscalização.

Austrália e Noruega também questionaram a fundamentação das medidas, advertindo que barreiras unilaterais podem provocar retaliações e aprofundar a instabilidade no comércio mundial.

Canadá adota tom moderado

O Canadá preferiu inicialmente uma reação mais cautelosa.

Mesmo diante de tarifas adicionais sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos canadenses, o governo afirmou estar disposto a manter um diálogo construtivo com Washington.

A postura reflete a profunda integração econômica entre os dois países e o temor de que uma escalada comercial comprometa setores que dependem de cadeias produtivas transfronteiriças.

Tarifas especiais atingem a China

Os Estados Unidos também pretendem retomar tarifas sobre produtos chineses na faixa de 20%.

Segundo a Reuters, Washington deverá respeitar o limite estabelecido no entendimento firmado entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, em novembro de 2025, sem ultrapassar o patamar negociado naquele momento.

Mesmo assim, a China permanece como um dos principais alvos da política comercial norte-americana, especialmente em áreas estratégicas como tecnologia, energia, veículos elétricos, baterias e minerais críticos.

Exceções revelam interesses econômicos

O desenho das tarifas demonstra que os critérios adotados não se limitam às acusações sobre trabalho forçado.

Diversos países receberam tratamentos específicos em função de acordos comerciais, características de seus mercados e importância de determinados produtos para a indústria americana.

No setor de vestuário, por exemplo, exportações de países como Bangladesh, Camboja, Indonésia e Malásia poderão utilizar cotas especiais e escapar de parte das tarifas, desde que empreguem insumos produzidos nos Estados Unidos, como o algodão norte-americano.

A condição transforma a política tarifária também em um instrumento para ampliar as vendas de produtos dos próprios Estados Unidos.

Comércio mundial entra em período de incerteza

A aplicação de tarifas sobre 60 países representa uma ruptura significativa com as regras multilaterais construídas ao longo das últimas décadas.

Especialistas temem que a medida provoque uma onda de retaliações, eleve preços, reduza investimentos e prejudique cadeias globais de produção.

Países atingidos poderão buscar novos mercados, ampliar acordos regionais e reduzir sua dependência dos Estados Unidos, acelerando uma reorganização do comércio internacional.

Ao atacar simultaneamente aliados, rivais e parceiros estratégicos, Trump coloca em risco não apenas as relações dos Estados Unidos com países como Brasil e China, mas também as próprias bases da globalização e de um sistema comercial internacional baseado em regras.

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