QUASE 40% DOS APOSTADORES TÊM ALGUM GRAU DE RISCO PARA VÍCIO, DIZ PESQUISA
Dados do Observatório sobre Drogas mostram que 55,2% dos adolescentes que apostam estão na zona de risco e que consumo de vapes cresce entre jovens
Mais de um terço das pessoas que participam de jogos de apostas no Brasil (38,6%) apresenta algum grau de risco ou transtorno relacionado ao vício. Entre os adolescentes, a situação é ainda mais alarmante: 55,2% dos jovens entre 14 e 17 anos que apostam estão nessa zona de alerta. Os dados fazem parte de uma pesquisa inédita disponível no Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), lançado nesta quarta-feira (26) pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, em evento no Palácio da Justiça, em Brasília.
A reportagem é baseada nas informações divulgadas pelo Ministério da Justiça e no estudo Lenad III, coordenado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com financiamento da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad). A plataforma do Obid reunirá dados de pesquisas, estudos e legislações, com parte do conteúdo disponível ao público.
“O Obid se encaixa nessa filosofia de compartilhar dados publicamente com a sociedade para que ela possa se integrar nessa luta e melhorar a situação não somente da segurança, mas também da saúde pública em nosso país”, declarou o ministro Ricardo Lewandowski durante o lançamento da ferramenta.
Segundo a secretária nacional da Senad, Marta Machado, a criação do Obid representa um avanço na formulação de políticas públicas fundamentadas em evidências. “O Obid vem preencher essa lacuna, reunindo e centralizando estudos e informações sobre drogas do ponto de vista da saúde, dos comportamentos, da justiça e da segurança pública, proporcionando conhecimento atualizado e confiável para gestores, pesquisadores e para toda a sociedade”, afirmou.
Entre os dados já disponíveis, destaca-se o crescimento preocupante do uso de dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), como os cigarros eletrônicos ou vapes, especialmente entre adolescentes. A maioria dos usuários de vapes nos cenários analisados (uso no último mês, no último ano e ao longo da vida) é adolescente. No recorte por gênero, 12% das adolescentes brasileiras afirmaram já ter experimentado o vape.
Apesar da alta adesão entre os mais jovens, a idade média de experimentação é de 24 anos. Entre os adolescentes usuários, 31,8% consumiram o produto no último mês. Já entre os adultos, a taxa foi de 25,2%. Curiosamente, 77,6% dos usuários afirmam que o vape não ajudou a parar de fumar cigarros convencionais.
Em relação às apostas, o Sul do Brasil aparece como a região com maior percentual de jogadores no último ano, seguido por Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste. Ao contrário do que se poderia imaginar, os sites de apostas online já superaram o tradicional jogo do bicho em popularidade.
O levantamento também revela um aumento expressivo no uso de medicamentos controlados, como analgésicos opioides, benzodiazepínicos (calmantes) e estimulantes. O crescimento foi mais acentuado entre mulheres. O uso de opioides, por exemplo, saltou de 0,8% da população em 2012 para 7,6% em 2023 — entre as mulheres, o percentual passou de 1% para 8,8%.
Já os benzodiazepínicos foram utilizados por 14,3% da população em 2023, contra 9,8% em 2012. Entre as mulheres, o uso alcançou 17,4%, enquanto entre os homens foi de 10,9%. Quanto aos estimulantes, a taxa geral subiu de 3,1% para 4,6% no mesmo período, com leve predominância no público feminino (4,8% contra 4,3% dos homens).
Outro destaque apresentado no evento foi o projeto Tânatos, uma pesquisa inédita da Faculdade de Medicina da USP financiada pela Senad. A investigação analisou a presença de substâncias psicoativas — como álcool, cocaína, cannabis e benzodiazepínicos — em vítimas de mortes violentas (homicídios, suicídios e acidentes de trânsito) entre 2022 e 2024, com base em amostras de sangue coletadas nos Institutos Médicos Legais.
O estudo apontou que 50,1% das vítimas apresentavam ao menos uma substância psicoativa no organismo. A cocaína foi detectada em 26,7% dos casos, e o álcool em 26,2%, com ocorrência combinada em muitos deles. Já a cannabis não apresentou correlação estatística significativa com mortes violentas, sendo detectada em menos de 2% das vítimas.
Entre as vítimas de trânsito, chama a atenção o dado de que 38% apresentavam álcool no sangue no momento anterior ao evento fatal — embora o estudo não determine se a pessoa era condutora, passageira ou pedestre.
Todos os dados sobre jogos de aposta, DEFs e uso de medicamentos fazem parte do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), cuja divulgação completa está prevista para junho, durante a Semana Nacional de Políticas sobre Drogas. A pesquisa abrange uma amostra de 16 mil pessoas e traz comparativos entre os anos de 2006, 2012 e 2023, com dados organizados em quatro painéis: prevalência, saúde, segurança pública e justiça criminal.
Por Brasil 247