O Sesc Copacabana recebe, até 6 de abril, o espetáculo Jacinta – Você Só Morre Quando Dizem Seu Nome Pela Última Vez, da Cia do Pássaro – Voo e Teatro (SP), com sessões de quinta a domingo, sempre às 19h. Escrita e dirigida por Dawton Abranches, a peça revisita a história real de Jacinta Maria de Santana, mulher negra que teve seu corpo embalsamado e exposto como curiosidade científica por quase trinta anos na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo. A montagem integra o projeto Trilogia do Resgate, que busca combater o apagamento histórico da população negra brasileira.
Na reta final da temporada, a programação inclui a oficina gratuita O Corpo Ancestral no Exercício da Cena, ministrada por Alessandro Marba. A atividade propõe uma experiência sensível de reconhecimento do corpo como estrutura fundamental na integração com o mundo. Destinada a estudantes de teatro, dança e outras formas de expressão artística, ou a qualquer interessado em explorar a ancestralidade como ferramenta de comunicação, a oficina abordará a percepção do movimento, memória corporal e técnicas de improvisação teatral e dança.
Praticamente anônima até 2021, quando a historiadora Suzane Jardim redescobriu seu caso em um jornal de 1929, Jacinta morreu após passar mal nas ruas de São Paulo. Encaminhada à Santa Casa, não resistiu e foi entregue ao professor Amâncio de Carvalho, da USP, que a usou para experimentos de embalsamamento. Seu corpo permaneceu em exposição e foi ultrajado, sendo utilizado até mesmo em trotes universitários. Enquanto isso, Amâncio teve seu nome eternizado em uma rua da Vila Mariana, bairro majoritariamente branco da cidade. Jacinta só foi enterrada após a morte do médico.
“A trama do espetáculo mostra os reflexos do passado sobre o presente e o futuro. Inspirados nos primórdios do Afrofuturismo de Sun Ra, imaginamos um outro lugar possível, onde Jacinta pudesse renascer. E esse lugar é o teatro”, explica Dawton Abranches.
No palco, Gislaine Nascimento e Alessandro Marba interpretam a história, acompanhados pela musicista Camila Silva, que executa ao vivo a trilha sonora no cavaquinho e na cuíca, evocando o universo do samba. Jacinta é o segundo ato da Trilogia do Resgate, projeto da Cia do Pássaro que resgata figuras negras marcantes da história brasileira. A iniciativa começou em 2016 com Baquaqua – Documento Dramático Extraordinário, sobre a trajetória de Mahommah Baquaqua, africano escravizado que passou pelo Brasil no século 19.
Contemplado pelo edital Sesc RJ Pulsar 2024/25 e produzido pelo Plataforma – Estúdio de Produção Cultural, o espetáculo transcende o caso de Jacinta para discutir temas como sexismo, racismo, eugenia no Brasil e o legado da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.