Há quem acredite fervorosamente e há quem atribua pouco valor à influência do vice-campeonato do Colo-Colo na Conmebol Libertadores, em 1973, sobre a data do golpe de Estado que depôs Salvador Allende. Afinal, o clube mais popular do Chile atrasou ou não o início da ditadura militar no país?
Há 52 anos, o Botafogo – que estreia no torneio sul-americano nesta quarta-feira, no estádio Nacional, contra a Universidad de Chile – acabou participando desta história com um gol sofrido no fim de um duelo contra o Colo-Colo.
Botafogo, Colo-Colo e Cerro Porteño disputavam o triangular semifinal em busca de uma vaga na decisão. Se quisessem avançar à final da Libertadores, os chilenos não podiam perder para o Alvinegro – um empate era o mínimo necessário, somado a uma combinação de resultados do Cerro Porteño.
Em pleno estádio Nacional, em 8 de maio, o Alvinegro chegou a perder parcialmente por 2 a 0, mas conseguiu a virada por 3 a 2. O Botafogo vencia até os últimos minutos do segundo tempo, quando um gol de Leonardo Véliz igualou o placar e manteve o sonho do Colo-Colo vivo.
— Quando meu chute de canhota venceu a tentativa de defesa de Wendell, ouvi um rugido que ainda ressoa em meus ouvidos. Um estádio com 80.000 pessoas aplaudindo o gol, faltando um minuto para o fim do jogo — disse o herói do Colo-Colo.
O Colo-Colo carimbou a ida à final da Libertadores com uma ajuda do Botafogo. A vitória alvinegra por 2 a 0 sobre o Cerro Porteño, depois do empate por 3 a 3, deu aos chilenos – fossem eles torcedores do Colo-Colo ou não – a chance de ver, pela primeira vez, um time do país em uma decisão do torneio. O Botafogo ficou na terceira posição do triangular semifinal, com três pontos.
— A fama do Colo-Colo de 1973, como o time que atrasou o golpe de Estado, é porque o sucesso do clube naquela campanha da Libertadores acontece bem na época que o governo do Salvador Allende está vivendo sua crise final. São os meses anteriores ao golpe, quando há uma divisão política e social muito grande entre os chilenos, que vai terminar com o golpe em 11 de setembro. O que se comenta hoje, em retrospecto, é que um raro momento de união que havia no país naquele contexto era quando o Colo-Colo jogava. Mesmo que seja um time odiado na disputa local por rivais, na internacional acaba tendo essa torcida para que o futebol do país triunfe de alguma forma — disse o historiador Maurício Brum, autor de “La Cancha Infame – A história da prisão política no Estádio Nacional do Chile”, acrescentando:
— O Chile, em 1973, estava numa situação de hiperinflação, de protestos cada vez mais fortes da oposição do país, de sabotagens de grupos econômicos que não queriam a continuidade do governo. Houve muitas paralisações de caminhoneiros bancadas por sindicatos patronais, por dinheiro estrangeiro, uma série de ações para desestabilizar aquele governo que já estava mal das pernas. Havia um clima cada vez mais golpista pelo país.
A teoria de que o Colo-Colo foi o time que atrasou o golpe de Estado no Chile é endossada pela data do “Tanquetazo”, tentativa falha de golpe de Estado em 29 de junho de 1973. A partida de desempate da final da Libertadores, que deu o título ao Independiente (ARG), aconteceu em 6 de junho – como se os militares, sabendo que “o futebol não deveria ser tocado”, tivessem esperado o desfecho do Colo-Colo no torneio para seguir com os planos de tomada do poder.
Três meses depois, em 11 de setembro, o Palácio da Moeda – sede do Poder Executivo do Chile – foi bombardeado por ordem do general Augusto Pinochet, que encabeçou a sanguinária ditadura no país. O Chile só foi redemocratizado em 1990.
O Estádio Nacional, palco do duelo entre Botafogo e Universidad de Chile nesta quarta-feira, foi palco de prisões e torturas durante a ditadura chilena. O local recebeu por volta de 40 mil pessoas, entre presos políticos e torturados; a estimativa é de que 400 indivíduos foram mortos no estádio.
Próximo ao local destinado à torcida visitante, há um memorial na saída 8, que honra a memória dos que sofreram com a ditadura no Chile. É neste setor que há a famosa frase “um povo sem memória é um povo sem futuro”.
por Bárbara Mendonça – GE