Novo governo anuncia abandono da política de “paz total” e aproximação com Estados Unidos e Israel, em uma guinada à extrema-direita na política colombiana
O novo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, assumiu o governo defendendo uma política de segurança baseada no fortalecimento das Forças Armadas, na construção de megacárceres e no abandono do diálogo com grupos armados. O discurso de posse sinaliza uma ruptura com a estratégia de “paz total” adotada pelo governo de Gustavo Petro e uma retomada de políticas de segurança associadas ao período do ex-presidente Álvaro Uribe.Play Video
Segundo a Telesur, fonte das informações, De la Espriella apresentou uma agenda de forte endurecimento na segurança pública, combinada com liberalização econômica e maior aproximação internacional com os Estados Unidos e Israel. O novo presidente declarou que a possibilidade de diálogo está esgotada e prometeu restabelecer políticas de enfrentamento direto aos grupos classificados por seu governo como narcoterroristas.
A mudança representa uma inflexão profunda para a Colômbia, país marcado por décadas de conflito armado, deslocamentos forçados, narcotráfico, atuação de grupos paramilitares e graves violações de direitos humanos. A decisão de privilegiar novamente instrumentos militares coloca no centro do debate os limites e riscos de uma estratégia baseada predominantemente na força.
Militarização volta ao centro da política de segurança
De la Espriella apresentou as Forças Armadas e a polícia como pilares de sua estratégia para enfrentar organizações criminosas e grupos armados.
Em seu discurso, prometeu respaldo político e jurídico aos agentes das forças de segurança que, segundo sua formulação, estiverem cumprindo suas obrigações.
“Comigo como comandante supremo das Forças Armadas, terão um defensor a todas as horas”, afirmou.
A declaração sintetiza a orientação anunciada pelo novo governo. De la Espriella pretende ampliar a presença militar e fortalecer instrumentos repressivos como resposta aos problemas de segurança colombianos.
A estratégia inclui ainda a construção de megacárceres, modelo que ganhou projeção regional como símbolo das políticas de encarceramento em massa e de endurecimento penal.
A aposta nesse caminho representa uma mudança em relação às tentativas de combinar segurança pública, negociação política e políticas sociais para enfrentar as causas históricas da violência colombiana.
O desafio será evitar que o fortalecimento das forças de segurança seja acompanhado pela repetição de abusos registrados em períodos anteriores do conflito.
Herança de Uribe retorna ao discurso presidencial
Um dos elementos mais significativos da posse foi a reivindicação das políticas de segurança adotadas durante os governos de Álvaro Uribe.
De la Espriella elogiou a gestão do ex-presidente e sinalizou que pretende recuperar aspectos daquela estratégia de enfrentamento aos grupos armados.
A referência é politicamente sensível porque o período associado à política de “segurança democrática” também foi marcado por graves denúncias e casos de violações de direitos humanos, incluindo execuções extrajudiciais.
O episódio dos chamados “falsos positivos” tornou-se um dos capítulos mais traumáticos da história recente colombiana. Civis foram mortos e apresentados como guerrilheiros abatidos em combate em um sistema relacionado à pressão pela apresentação de resultados operacionais.
Nesse contexto, a promessa de recuperar políticas associadas ao período Uribe recoloca no debate colombiano uma questão central: como fortalecer a segurança sem reconstruir estruturas de incentivo que contribuíram para violações de direitos humanos.
JEP entra na mira do novo governo
Outra frente de conflito anunciada por De la Espriella envolve a Jurisdição Especial para a Paz (JEP), criada no contexto dos acordos de paz firmados entre o Estado colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
O presidente criticou o funcionamento da instituição e prometeu revisar seus efeitos.
De la Espriella classificou a JEP como “um mecanismo de indulgência” para pessoas que cometeram crimes durante o conflito.
A posição abre uma disputa em torno de uma das principais instituições do processo de paz colombiano.
A JEP foi concebida como parte de um modelo de justiça transicional destinado a investigar crimes cometidos durante décadas de conflito armado, estabelecer responsabilidades, reconhecer vítimas e combinar mecanismos de responsabilização com a construção da paz.
A tentativa de revisar esse sistema poderá produzir tensões jurídicas e políticas, além de colocar novamente em discussão compromissos assumidos pelo Estado colombiano durante o processo de paz.
Governo declara esgotada a via do diálogo
De la Espriella também anunciou o encerramento da política de “paz total”, uma das principais bandeiras do governo Petro.
A estratégia buscava estabelecer negociações ou processos de diálogo com diferentes grupos armados para reduzir a violência e construir mecanismos de desmobilização.
O novo presidente sustenta que essa alternativa chegou ao limite.
A decisão significa uma passagem explícita de uma estratégia baseada em negociações para outra predominantemente militar e confrontacional.
Além do fim dos diálogos, De la Espriella anunciou a retomada da fumigação de cultivos ilícitos.
O combate às plantações destinadas à produção de drogas foi durante décadas um dos elementos centrais da política antidrogas colombiana e da cooperação entre Bogotá e Washington.
A retomada das fumigações tende a reacender debates sobre seus efeitos ambientais, sanitários e sociais, especialmente nas comunidades rurais das regiões produtoras.
O governo também pretende restabelecer uma lista de organizações classificadas como narcoterroristas, reforçando a abordagem de segurança nacional para o enfrentamento desses grupos.
Liberalização econômica, fracking e redução de impostos
A guinada não ficará restrita à segurança pública.
Na economia, De la Espriella anunciou uma agenda liberal, com redução da intervenção estatal e estímulos ao setor privado.
Entre as medidas prometidas está a eliminação do imposto sobre o patrimônio.
O novo governo também pretende autorizar o fracking, técnica de exploração de petróleo e gás por fraturamento hidráulico que provoca forte controvérsia ambiental em diferentes países.
A medida representa uma ruptura com políticas ambientais defendidas durante o governo Petro e sinaliza a intenção de ampliar a exploração de hidrocarbonetos.
A combinação entre liberalização econômica, redução tributária sobre o patrimônio e expansão da exploração de combustíveis fósseis aproxima o programa econômico do novo governo das agendas tradicionais da direita latino-americana.
Estados Unidos e Israel ganham espaço na política externa
A posse também sinalizou uma mudança na orientação internacional da Colômbia.
De la Espriella pretende fortalecer as relações estratégicas com os Estados Unidos e Israel, revertendo a postura mais autônoma adotada pelo governo Petro em diferentes temas internacionais.
A presença de representantes e dirigentes da direita regional na cerimônia reforçou a dimensão política dessa mudança.
Entre os representantes dos Estados Unidos estava Todd Blanche, ex-advogado do atual presidente norte-americano Donald Trump.
A participação de atores estrangeiros alinhados à direita sinaliza que o novo governo colombiano pretende inserir-se em uma rede regional e internacional de governos e forças políticas conservadoras.
Essa aproximação deverá ter consequências não apenas diplomáticas, mas também para políticas de defesa, inteligência, segurança e combate ao narcotráfico.
“Escudo das Américas” amplia cooperação em inteligência
De la Espriella anunciou ainda a criação do chamado “Escudo das Américas”, iniciativa destinada a ampliar a cooperação internacional em segurança e inteligência.
O projeto terá sede em Medellín.
A proposta busca articular mecanismos regionais de compartilhamento de informações e coordenação contra organizações criminosas e grupos classificados como ameaças à segurança.
A iniciativa reforça o caráter internacional da política de segurança anunciada pelo novo presidente.
Ao mesmo tempo, uma estrutura regional de inteligência dessa natureza deverá suscitar discussões sobre mecanismos de controle institucional, proteção de dados, soberania nacional e garantias individuais.
Colômbia entra em nova fase política
A posse de De la Espriella encerra uma etapa marcada pela tentativa de Gustavo Petro de ampliar negociações com grupos armados e buscar uma solução política para conflitos que atravessam a história colombiana.
A nova administração aposta no caminho oposto.
Militarização, megacárceres, retomada das fumigações, questionamento da JEP, abandono da “paz total” e recuperação de elementos da política de segurança de Uribe formam os pilares anunciados para a nova etapa.
Na economia e na política externa, a mesma inflexão aparece na promessa de eliminar o imposto sobre o patrimônio, liberar o fracking e estreitar os vínculos com Estados Unidos e Israel.
A dimensão dessa mudança coloca novamente no centro da política colombiana o debate sobre segurança e direitos humanos. A promessa de recuperar estratégias associadas ao período Uribe ocorre em um país que ainda enfrenta as consequências de décadas de conflito e de episódios de violência estatal, tornando a fiscalização institucional e a proteção das garantias fundamentais questões centrais diante da nova orientação anunciada pelo governo.
Por Brasil 247