Vivemos uma época em que muitos pais desejam oferecer aos filhos tudo aquilo que não tiveram. Querem protegê-los de qualquer sofrimento, evitar frustrações e proporcionar felicidade o tempo todo. A intenção é bonita, mas existe um risco: confundir amor com a ausência de limites.
Educar não é dizer “sim” para tudo. Amar também é saber dizer “não” quando necessário.
Os limites ajudam a criança a compreender que o mundo possui regras, responsabilidades e respeito pelo outro. É dentro dessas pequenas experiências do dia a dia que ela aprende a esperar sua vez, cuidar dos objetos, cumprir combinados, lidar com a frustração e entender que nem todos os desejos podem ser realizados imediatamente.
É natural que a criança teste esses limites. Faz parte do seu desenvolvimento. Quando insiste, responde, faz birra ou tenta negociar uma regra, ela não está necessariamente sendo malcriada. Muitas vezes, está apenas tentando descobrir até onde pode ir. É justamente nesse momento que a presença dos adultos faz toda a diferença.
Ser firme não significa ser autoritário.
Não é preciso gritar, humilhar ou recorrer à violência para educar. A autoridade nasce da coerência. Quando os pais estabelecem uma regra e a cumprem com calma, segurança e respeito, a criança percebe que existe uma referência confiável. Já quando cada dia vale uma regra diferente, ela se sente insegura e passa a testar ainda mais.
Outro desafio dos nossos tempos são as telas. Celulares, tablets e videogames fazem parte da infância atual, mas também precisam de limites. O tempo de uso, os horários e o acompanhamento dos adultos são tão importantes quanto ensinar boas maneiras ou incentivar a leitura. Nenhuma tecnologia substitui uma conversa, um abraço, uma brincadeira ou uma história contada antes de dormir.
Também é importante lembrar que educar não é uma tarefa solitária. Conversar com professores, avós, familiares e outros pais amplia nossa visão e fortalece a caminhada. Ninguém nasce sabendo educar. Todos aprendemos um pouco a cada dia, juntamente com nossos filhos.
E, por mais cansativa que a rotina possa parecer, vale a pena aproveitar cada fase da infância. As birras passam. Os brinquedos ficam para trás. As mochilas mudam de tamanho. O tempo corre mais depressa do que imaginamos.
Os limites que damos hoje se transformarão, amanhã, em segurança, responsabilidade e autonomia.
Como dizia o médico e educador Içami Tiba:
“Criar uma criança é fácil, basta satisfazer-lhe as vontades. Educar é trabalhoso.”
Que nunca nos falte disposição para fazer justamente esse trabalho de amor.
Micheli Faria
Professora, jornalista e incentivadora de leitura.