Grupo de religiosos critica conservadorismo autoritário e pede atenção a causas sociais e ambientais
Um grupo de bispos católicos brasileiros divulgou uma carta pública na qual critica o chamado “conservadorismo autoritário” presente em setores da Igreja e faz um apelo aos eleitores por uma escolha consciente e lúcida no pleito eleitoral, informa a CartaCapital. No documento, os religiosos reforçam que a instituição não possui filiação partidária, mas ressaltam o dever de se posicionar de forma firme na defesa dos segmentos mais pobres, da democracia, da soberania nacional e da preservação ambiental.
Intitulada Não deixemos cair a profecia, a declaração é assinada pelos integrantes do coletivo “Bispos do Diálogo pelo Reino”. O grupo reúne bispos de diversas regiões do país e já havia publicado um posicionamento conjunto durante o processo eleitoral de 2022.
Na nova manifestação, os religiosos alertam que o período de disputas eleitorais costuma acirrar tensões dentro do ambiente religioso. Diante desse cenário, os bispos renovam o compromisso com a vida, a democracia, a soberania e a defesa do meio ambiente. O texto pondera que, embora não haja vínculo com agremiações políticas, a posição da Igreja deve estar ao lado dos trabalhadores e das populações vulneráveis, apoiando aqueles que respeitam o povo e defendem o país.
O documento manifesta oposição a posturas fascistas, à manipulação da fé para fins políticos e à propagação de mentiras e discursos de ódio em plataformas digitais. Os prelados convidam a população a votar em candidaturas comprometidas com as pautas populares, o bem comum e a sustentabilidade ambiental, sem citar nomes de candidatos ou siglas partidárias especificamente.
Críticas ao clero e às mídias religiosas
O texto traz duras críticas a setores do catolicismo que usam as redes sociais e veículos de comunicação de inspiração religiosa para promover ataques contra lideranças empenhadas na defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. De acordo com a carta, uma parcela do clero, acompanhada por religiosos e leigos, tem disseminado discursos superficiais e agressivos, além de promover devocionismos que rejeitam as diretrizes oficiais do magistério da Igreja Católica.
Para os bispos, essa conduta gera bolhas alienantes que alimentam um clima de hostilidade contra a atuação social e comunitária dos católicos. O documento denuncia os episódios de violência verbal e perseguição sofridos por padres, bispos, diáconos e leigos, classificando tais atitudes como tentativas diretas de intimidar e silenciar a atuação profética da Igreja.
Em outro ponto, a carta faz referência à encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, que adverte sobre os perigos de desumanização associados ao avanço rápido da inteligência artificial, da robótica e da transformação digital. O texto papal convoca a comunidade cristã a rejeitar a chamada “síndrome de Babel”, caracterizada pela busca desenfreada do lucro e pela imposição de uma uniformidade que anula as diferenças culturais e individuais.
Pauta social, meio ambiente e soberania
A manifestação correlaciona a evangelização à transformação social e política, citando as diretrizes gerais aprovadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para o período de 2026 a 2032. O documento aponta que a pregação religiosa deve resultar em ações concretas voltadas à superação da desigualdade social e à proteção de grupos em situação de vulnerabilidade.
Entre os problemas socioambientais destacados estão os impactos negativos do extrativismo mineral predatório e do agronegócio desprovido de critérios socioambientais. A carta também enfatiza a necessidade de combater a violência contra mulheres, populações negras, povos originários e a comunidade LGBTQIAPN+, além de abordar as relações de trabalho na sociedade contemporânea.
Por fim, o documento ressalta a relevância da soberania nacional no contexto de tensões diplomáticas recentes do Brasil com os Estados Unidos. O grupo de bispos conclui que a construção do projeto de país exige o combate contínuo às injustiças sociais e a recusa em aceitar a permanência do fosso da desigualdade.