Biotônico Fontoura: o fortificante que marcou gerações e carregava álcool na fórmula

Produto criado em 1910 fez parte da infância de milhões de brasileiros e teve sua história ligada a Monteiro Lobato e ao personagem Jeca Tatuzinho

Da Redação do Gazeta Rio

Poucos medicamentos fazem parte da memória afetiva dos brasileiros como o Biotônico Fontoura. Presente durante décadas nos armários das famílias, o tradicional fortificante atravessou gerações e se transformou em um dos maiores símbolos da indústria farmacêutica nacional.

Segundo reportagem da BBC News Brasil, o produto, criado em 1910 pelo farmacêutico paulista Cândido Fontoura Silveira, nasceu para ajudar sua esposa, que sofria com constantes episódios de fraqueza. A fórmula original misturava sais de ferro, fosfatos e vinho espanhol, chegando a conter 9,5% de álcool, percentual semelhante ao encontrado em alguns vinhos.

A presença do álcool permaneceu na composição durante quase todo o século XX. Somente há 25 anos, uma determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu que tônicos e estimulantes de apetite destinados ao público infantil contivessem álcool, obrigando a indústria a reformular o medicamento.

Outro capítulo importante da história do Biotônico envolve o escritor Monteiro Lobato. Entusiasmado com o produto, ele ajudou a batizá-lo e criou uma das mais famosas campanhas publicitárias brasileiras ao associar o fortificante ao personagem Jeca Tatuzinho, transformando o caipira doente em símbolo da recuperação da saúde e da importância do saneamento básico. A parceria marcou a publicidade nacional durante décadas.

O sucesso do Biotônico também foi impulsionado pelo tradicional Almanaque Fontoura, distribuído gratuitamente em farmácias e repleto de histórias, curiosidades, quadrinhos e informações sobre saúde. O material alcançou tiragens milionárias e ajudou a consolidar a marca no imaginário popular.

Especialistas ouvidos pela BBC destacam que o produto refletia a realidade sanitária do Brasil do início do século passado, quando desnutrição, anemia e verminoses eram problemas frequentes. Hoje, embora continue disponível no mercado com fórmula atualizada e sem álcool, não há evidências científicas de que o medicamento aumente o apetite, sendo o ferro seu principal componente de eficácia comprovada em casos específicos de deficiência desse mineral.

Mais do que um medicamento, o Biotônico Fontoura permanece como um retrato de uma época em que ciência, publicidade e memória afetiva caminharam lado a lado na formação da cultura brasileira.

Fonte: BBC News Brasil

BrasilculturaMeio ambienteSustentabilidade
Comments (0)
Add Comment